quarta-feira, 27 de Maio de 2009

Pontos cardeais

Os homens vestidos de escarlate pregavam a torto e a direito. Mais a torto pois não tinham jeitinho nenhum para darem com os martelos nos pregos. Estavam todos em cima de um enorme palco, junto a um grande púlpito, lá ao fundo, numa imensa praça. Mal se viam. Realmente, eram uns pontos, os cardeais.

sexta-feira, 22 de Maio de 2009

É oficial! Vem aí o meu 1º livro!

Pois, é verdade, já posso anunciar oficialmente que o meu 1º livro será apresentado e publicado em Outubro. A publicação será constituída por contos curtos e muito curtos e o nome do livro é... Ok, terão de esperar mais algum tempo para saberem o nome do livro. A editora é a Edium Editores, de Matosinhos. Apesar de estar mais vocacionada para a poesia, decidiram apostar num género pouco divulgado em Portugal: a microficção (ou, nas minhas palavras, os nanocontos ou os contos flash).
A pouco e pouco irei desvendando mais pormenores sobre o meu livro. Dsesde já posso dizer que é um livro 2 em 1 e que terá uma pequena campanha de promoção no youtube, com pequeno filmes low-fi realizados por mim). Ok, por agora não levanto mais o véu mas fiquem atentos: o meu blog (ou meus mails cirúrgicos) irão falar da minha 1º publicação sempre que eu achar oportuno.
Muito obrigado e até breve.

terça-feira, 19 de Maio de 2009

Apito final

A montra exibia um cartaz amarelado e tosco. “TRESPAÇA-SE”, estava escrito assim, à mão, num português no mínimo duvidoso.
A loja era estreita e pequena. E cheirava a mofo. Vendia tudo e mais alguma coisa, a um preço barato e fixo.
O tipo vestido de preto vasculhou todos os escaparates poeirentos mas não encontrou o que queria.
— Por acaso não tem apitos?
A empregada ruminava uma pastilha elástica.
— Veja naquela prateleira ali.
Apontou o dedo numa direcção vaga.
— Aquela que tem os porta-moedas e os espanadores?
— Essa mesmo.
Vermelho baço e empoeirado, lá estava ele, meio escondido debaixo de um porta-moedas de napa, o último apito à venda numa loja fora de jogo.

(a imagem é um logótipo de uma equipa de futebol virtual, que acabou de ser extinta há poucos dias; de facto, foi a a minha equipa de futebol virtual durante 5 anos, no jogo hattrick; o logótipo foi criado por Augusto Pardal)

segunda-feira, 18 de Maio de 2009

Dar o nó

Hesitei no momento de dar o nó.
Colei-me à minha noiva e segredei.
— Vamos mesmo dar o nó?
A resposta foi peremptória.
— Claro que sim!
Mas eu continuava a hesitar.
— Mas qual? O nó simples ou o nó de oito?
— Hum, acho que nenhum desses é o mais adequado. Porque não tentamos o nó de frade?
- Não me parece muito conveniente. Não te esqueças que estamos numa cerimónia judaica…
— Tens razão… E que tal o nó direito?
— Não é mal pensado mas eu gosto mais do nó de pescador…
— Ná… Esse é usado para unir dois cabos…
— Pois… Já sei! Que tal o nó singelo?
— Fantástico! Parece-me muito bem!
— Vamos a isso?
— Vamos!
E foi assim que finalmente dei o nó.

domingo, 17 de Maio de 2009

Pelas ruas da amargura

Eu não conhecia aquela cidade. Eu não conhecia aquelas ruas, aqueles passeios, aqueles edifícios. Tinha deixado para trás uma cabana feita de chocolates e bolos, com uma velhinha que não parava de me empanturrar. Suspeitei que me quisesse matar com diabetes. Fugi entre dois bolos de chocolates e um prato de ovos moles. Corri, deixei o açúcar para trás e entrei naquela cidade, onde todas as ruas tinham um cheiro a amargura. No entanto, prefiro assim. Sempre que desejo um doce meto as mão nos bolsos. Como que por magia, encontro neles umas bolinhas estaladiças e coloridas, recheadas de chocolate. Reminiscências doces de uma cabana que me ia matando de hiperglicemia.
Comia as bolinhas às escondidas pois naquela cidade as doçuras eram proibidas. Para elas não se tornarem enjoativas, passava as mãos pelo pavimento das ruas, pelos edifícios e chupava os dedos. Nas montras espelhadas das lojas notava os esgares amargos da minha cara. Era nesse momento que tirava do bolso umas bolinhas e metia-as rapidamente na boca. Só assim conseguia esquecer que andava pelas ruas da amargura.

sábado, 16 de Maio de 2009

Operação de alto risco

Foi uma operação complicada. Chamaram o melhor especialista e requisitaram um carro dos bombeiros equipado com uma escada automática, que se esticava cerca de 40 metros. Chegada a hora H, a escada ergueu-se e por ela elevou-se um sujeito franzino mas resoluto, e ainda por cima nada atreito a vertigens. Estava equipado com uma caneta de feltro de ponta grossa e uma régua de 60 centímetros. Quando chegou perto da fachada do prédio não hesitou. Com toda a precisão, traçou um risco certinho na parede exterior do edifício.

(imagem retirada daqui daqui)

sexta-feira, 15 de Maio de 2009

"Posso apalpar um pouco a senhora?"

O título deste post também é o título da minha última crónica (a 15ª) no Semanário Transmontano. Leiam e vejam como um disparate de Silvio Berlusconi foi capaz de inspirar o meu texto. Espero que se divirtam.

Nota: a crónica tem um pequeno erro. Referi a cidade como Abruzzo, quando esta é uma região de Itália. A cidade é Aquila.

quinta-feira, 14 de Maio de 2009

Palavras leva-as o vento

Que grande






















rabanada























passou por aqui.

Dar a volta

Era muito simples dar a volta à Josefina. Bastava apenas que ela estivesse quieta. Depois, com toda a facilidade, qualquer um a poderia contornar, completando uma volta de 360º.

Ficar a ver navios

Éramos 3. Eu, o quim e o zeca. E éramos ainda muito novos, 7, 8 anos cada um, talvez. As férias eram bem grandes (mais ou menos 20 metros de altura) e no final do Verão, quando se agitavam as marés vivas, não podíamos ir à água. A culpa era da bandeira. Vermelha viva, e sempre a abanar. O vento não perdoava. O mar bravo muito menos.
Não havia muito a fazer. Nem jogar à bola podíamos pois a praia ficava sem areia. Sentávamo-nos nas rochas do pontão e ficávamos a ver navios.
— Olha aquele!
— É um petroleiro!
— E lá ao fundo vem um cruzeiro...
— Eu queria era que aparecesse um barco de guerra.
— Ou um submarino.
— E que chocassem todos ao mesmo tempo!
— Que pintarola!
— KABUM, SPLASH, KABUM!
Nesse tempo era mesmo divertido ficar a ver navios.

quarta-feira, 13 de Maio de 2009

Sopas de cavalo cansado

Para preparar convenientemente esta receita, comece por montar um cavalo que não seja nem muito selvagem nem muito manso e cavalgue montes e vales com ele (se não sabe andar a cavalo, contrate um cavaleiro baratinho). Quando o animal estiver bem cansado, ou quando já tiver as pernas ou o rabo em completo estado de dormência, leve-o para um estábulo. Ponha-o a dormir com um tranquilizante (de preferência via intravenosa). No maior panelão que tiver, ferva cerca de 10 litros de água. Entretanto certifique-se que a sua melhor faca está bem afiada.
Para que ninguém fique mal disposto – e para eu não ter os protectores dos animais à perna – dou por terminado este conto.
Caso tenha ficado com fome, assalte o frigorífico mais próximo ou vá a uma cadeia fast-food.
Aiô Silver e bom apetite!

Frase feita

Frase feita é a coisa mais fácil de se fazer. Basta juntar estas duas palavras: frase feita. E já está!

Lugar-comum

Rita, Carlos, Cristina, António, Eufémia, Marlon, Vicky e Ruca partilhavam a mesma casa. À noite era comum juntarem-se todos no mesmo lugar: a cama do único quarto do apartamento.

terça-feira, 12 de Maio de 2009

Assalto

Hoje uma dúvida assaltou-me. Ela nem sequer era muito grande e não parecia ser atemorizadora. Enganei-me.
— As certezas ou a vida!
Perante esta ameaça, e como fui sempre um bocado caguinchas, lá tive que lhe entregar a carteira. Não estava muito recheada e não tinha o que ela queria. Havia apenas 4 ou 5 interrogações mas de pequeno valor.
Antes de me virar as costas e mergulhar num mar que questões, ainda falou comigo num tom zangado.
— Para a próxima vez trata de teres a carteira bem recheada de certezas ou transformo-te a vida num inferno existencial, ouviste?
Fiquei a tremer e nem mesmo o auxílio de uma convicção que veio ao meu encontro me descansou: mais tarde ou mais cedo a dúvida iria assaltar-me de novo. Disso eu tenho a certeza.

terça-feira, 5 de Maio de 2009

Festa rija

Aproximou-se de mim com ar ameaçador e desferiu um potente murro, que me deitou ao chão. Foi a festa mais rija que me fizeram até hoje.

domingo, 3 de Maio de 2009

A corda que te desperta

Tens algo a oprimir o teu pescoço. Uma dor, um aperto, um sufoco. Acorda desse pesadelo. Já estás desperto? Óptimo. Prepara-te. A injecção letal segue dentro de momentos.



(clip de uma arrepiante e fantástica actuação ao vivo de maria rita e sua banda, na canção Cupido; letra subtil, música envolvente mas com garra, sensualidade e interpretação de cortar o fôlego)