sábado, 28 de Fevereiro de 2009

Misérias da vida (flash 2)

O meu pai trabalhava na construção civil. A minha mãe era empregada doméstica. Morreram os dois no dia do meu aniversário. O meu pai caiu de um andaime. A minha mãe morreu electrocutada numa das casas onde prestava serviço. Irei ficar eternamente novo: jurei a mim mesmo que nunca mais faria anos na minha vida.

sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2009

Misérias da vida (flash 1)

Fugi da prisão 3 dias antes do fim da pena. Fui atropelado no dia seguinte. Neste momento estou num hospital-prisão. Não me mexo. O médico disse-me que vou ficar paralisado para sempre. Não deve existir prisão mais segura do que esta verdade.

quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2009

Marta e as bolas de sabão

Era uma vez uma menina. A menina chamava-se Marta.
A Marta gostava de doces, de vídeos de música e de dar pontapés no ar.
Um dia, quando foi ao trabalho da mãe, descobriu que também gostava de bolas de sabão. Mas a Marta tinha um pequeno problema: não sabia preparar o detergente para as bolas de sabão.
A mãe e as suas colegas lá se entreteram a arranjar-lhe o sabão para as bolas. Fizeram misturas e mais misturas mas a todas elas a Marta dizia:
— Não, não e não. Não é assim que se fazem bolas de sabão!
E depois das amigas da mãe vieram também os amigos da mãe. E também eles tentaram fazer as misturas do agrado da Marta. Mas a todas elas dizia:
— Não, não e não. Não é assim que se fazem bolas de sabão!
Quando já não havia mais ninguém no trabalho da mãe, todas as pessoas do prédio também tentaram fazer as bolas que a Marta queria. Mas a todas a menina dizia:
— Não, não e não. Não é assim que se fazem bolas de sabão!
Desesperada, a mãe da Marta pôs anúncios em jornais e revistas.
As respostas foram mais que muitas. E as tentativas para se fazeram as bolas de sabão do agrado da Marta também. Mas a todas ela continuava a dizer:
— Não, não e não. Não é assim que se fazem bolas de sabão!
Até que um dia, vindo não se sabe de onde, apareceu um menino. Era mais ou menos da idade da Marta. E também gostava de bolas de sabão. Mas, ao contrário da Marta, o Rui (o nome do menino) sabia fazê-las. E o Rui virou-se para a Marta e disse:
— Queres ter as mais bonitas bolas de sabão? Então vem comigo. Eu mostro-te como se fazem.
O Rui pegou na mão da Marta e lá foram os dois fazer as bolas de sabão. A menina viu atentamente com o Rui as fazia e depois também ela as fez. E querem saber uma coisa? Foram as melhores bolas de sabão que algum dia a Marta teve. E sabem porquê? Porque foi a Marta a que as fez!
Assim, desde esse dia, a Marta nunca mais disse:
— Não, não e não. Não é assim que se fazem bolas de sabão!

(fotografia retirada de www.parenthood.com/article-topics/web_wise_blowing_bubbles.html)

sábado, 21 de Fevereiro de 2009

À dúzia é mais barato!

Não há nada mais barato do que ler uma crónica minha. Aliás, é à borla! Sendo assim, será muito fácil ler a minha última crónica no Semanário Transmontano, a 12ª, na qual eu meto muita água. É ler para crer. Muito obrigado.

quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2009

De pressão

De pressão
a cerveja
a tensão
o estalo com a mão
o desemprego
a crise
o pneumático
a bomba do asmático
a brigada do reumático
De pressão
o buraco escuro
o empurrão
o tombo
a cara no chão
o desfalecimento
o esquecimento
De pressão
o cimento da laje
que nos prega ao chão
à pressão
sem perdão

(imagem retirada deste site)

segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2009

O salvador, o socrático e o fumador

Um dia destes três homens juntaram-se à mesa de um café. Um era conhecido como salvador, o outro como socrático e o outro como fumador.
O socrático tratou logo de falar com o salvador:
— Como está? Estou muito contente que tenha aparecido. Sabe, eu conto consigo para ajudar a resolver os meus problemas e o senhor está muito bem referenciado. Acha que é capaz de me ajudar?
O salvador respondeu convictamente, e logo em duas línguas:
— Yes, I can. Sim, eu posso ajudá-lo.
O fumador tossiu, sacou de um cigarro e acendeu-o. Não pediu permissão, não ofereceu nenhum cigarro. Começou-o a fumar tranquilamente.
O salvador mordeu os lábios. Também lhe apetecia fumar mas tinha prometido à sua mulher que não o faria. Com a mão afastou o fumo e falou:
— O meu fardo é grande. Todo o mundo tem os olhos postos em mim. Esperam grandes coisas, talvez milagres. Eu já disse que as coisas não vão ser fáceis mas mesmo assim todos acham que vou dar uma nova face ao mundo. Ou qualquer coisa assim parecida...
O socrático escutou-o atentamente e disse:
— Eu agora só sei que nada sei mas por favor não me desiluda. Como já lhe tinha dito, conto consigo para resolver os meus problemas. Eu sou apenas um pensador. Mas não pense que não sei agir e tomar medidas. Eu sei! Mas agora simplesmente não sou capaz. Você é?
Uma vez mais o salvador respondeu a mesma frase feita:
— Yes, I can. Sim, eu posso ajudá-lo.
O fumador riu-se. E a rir-se atirou fumo para a cara dos outros dois homens.
O salvador e o socrático entreolharam-se, baixaram a cabeça mas nada disseram. Foi o salvador que rompeu o silêncio:
— Eu tive uma visão. Eu tive um sonho. Comigo o mundo irá entrar num novo rumo, seguindo caminho para uma nova ordem mundial...
O socrático não resistiu:
— Depois de me ajudar poderei ser seu conselheiro, se desejar... É que eu também tenho visões e sei que triunfará e eu irei sair da fossa, como alguns costumam dizer. E depois tenho uma grande admiração por si, platonicamente falando, claro...
Naquele café pequeno o fumo transformara-se numa densa cortina de nevoeiro. O fumador continuava a fumar como se nada fosse com ele. O salvador não se conteve:
— Não é capaz de fumar o seu cigarro lá fora?
Num assomo de clarividência, o fumador respondeu entre várias tossidelas:
— Sei que não tenho respeito nenhum pelos outros quando fumo. Mesmo nos locais proibidos continuo a fumar mas no meu trabalho não o posso fazer. Mas vou para a varanda e ao abrir a porta deixo enregelar os meus colegas no inverno. Faço a mesma coisa no restaurante. Ah, e quando conduzo não me atrevo a sujar o cinzeiro do carro. Atiro as beatas pelas janela, o que no Verão não é nada aconselhável mas nem penso nisso...
Virando-se directamente para os dois homens, findou o seu breve discurso com uma tirada digna de um verdadeiro estadista:
— Salvador, salva o mundo, dá-lhe um novo rumo e eu deixarei de fumar. Socrático, segue as pisadas da tua inspiração e do teu método, resolve os teus problemas e eu deixarei de fumar. Conto com vocês. Até lá continuarei a fumar como se não houvesse amanhã...
Assim que acabou de falar, o fumador levantou-se e encaminhou-se para a porta de saída. Antes de lá chegar, o socrático não resistiu em fazer um pedido:
— Por favor, não me dá um cigarrinho?
O salvador também não se fez rogado:
— Já agora não me arranja um?
Ainda envolto em fumo, o fumador troçou:
— Eu sabia! Afinal são como eu. Logo você não é nenhum salvador e você de socrático só tem o pedestal. Passem bem.
Em silêncio, e sem cigarros, permaneceram meditativos por uns tempos. Uma vez mais o socrático rompeu o silêncio:
— Então, vai mesmo mudar o mundo, não é verdade? E vai ajudar-me, não é assim? Hum, e também vai conseguir deixar de fumar, certo?
Ainda a pensar no cigarro que não fumou, o salvador só conseguiu balbuciar uma tímida resposta bilingue:
—No, I can’t. Não, acho que não sou capaz.

Nota final: nunca saberemos qual foi o não do salvador; terá sido um não à salvação do mundo?; terá sido uma recusa em ajudar o socrático?; ou terá sido a constatação de que afinal não iria conseguir deixar de fumar? Seja qual for o não, só o futuro o poderá desvendar. Ou talvez não.

(este texto foi primeiramente publicado como crónica no semanário transmontano, podendo também ser lido aqui)

sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009

6ª 13

Arranjou uma namorada nova. Teve sorte no Euromilhões. Atravessou a estrada mas com o entusiasmo não reparou nos automóveis. Há dias assim, em que ficamos cegos e surdos a tudo.

quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009

Era mitra

Argolado nas orelhas, boné na tola e conversa sempre acelera, não destoava dos outros, lá no bairro. Mas não papava grupos, andava sempre pela isolação, tentando sair do lado escuro da vida. Vivia sozinho, sem lembranças de pai desaparecido, mãe emigrada e dois irmãos em plena arte de aprendizagem na choça. Era mitra, diziam, mas para não seguir destinos indesejáveis refugiava-se no apartamento, nos livros e na internet. A indumentária era só para disfarçar, um laivo de uma sociabilidade própria dos sobreviventes, dos que, mergulhados nas margens, não querem destoar das suas correntes. Era mitra e não sabia, apenas um rótulo colado por dentro, no seu avesso, às avessas com o mundo e com o seu bairro. O destino existia mas ele queria distorcê-lo, tal como a curva que o espaço-tempo faz no universo, sempre à beira do limite, a dois passos da queda eminente num buraco negro.
Fechou o livro. Fechou os olhos e fugiu para o longínquo dos seus sonhos, desejando encerrar-se neles e não acordar mais, eremita a vaguear em direcção à improbabilidade de uma mudança. Era mitra e provavelmente nunca o deixaria de o ser. Estava traçado no tecto bolorento do seu quarto, manchas escuras a sufocarem o brilho da tinta, os raios quentes das estrelas, a ilusão de um outro mundo, tão fora e tão longe do seu.
Amanhã será outro dia. Provavelmente o mesmo de sempre.

Chato

O homem do pé chato era o tipo mais aborrecido do mundo. Em qualquer conversa arranjava sempre forma de trazer o assunto dos seus membros inferiores à baila. O tema podia ser política, economia, desporto ou outro mas em todos eles rasteirava sempre as faladuras com o raio do pé chato.
Os seus infortúnios, azares e oportunidades perdidas, tudo isso se devia ao seu pé. Mais ainda: até as condições meteorológicas adversas eram culpa do seu caminhante apêndice.
Um dia, numa roda de amigos e conhecidos, no meio de uma acalorada discussão, uma vez mais o homem do pé chato afirmou a pés juntos que a culpa de algo que a memória já engoliu na escuridão do esquecimento era do seu chato pé. Foi então que alguém falou para todos ouvirem: "Porque não amputas o raio do pé? Assim nada mais de mal te poderia acontecer e de uma vez por todas deixaríamos de escutar os teus queixumes. Cortavas o mal pela raiz, estás a compreender?".
Fez-se um silêncio incomodativo. A princípio atónito, o homem do pé chato recuou um pouco e sentou-se numa cadeira. Desapertou um dos sapatos, puxou as calças para cima e, para espanto de todos, tirou a prótese de um pé. Levantou-se e apoiado apenas numa perna exibiu o seu pé falso. Fez ouvir a sua voz: "Têm toda a razão, esta merda incomoda mesmo!".
Arremessou com violência a prótese defeituosa pela janela fora, prometendo a si mesmo nunca mais ser um chato ao pé dos outros.

(imagem retirada deste site)

quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2009

Em crise

Em crise a palavra poup.
Corta aqu e al e baixa a grimpa.
Em crise evitam-se os pontos as exclamações e até as vírgulas
em crise o discurso fica mais enxuto sem maiúsculas e com poucas esdrúxulas
nãoháespaçosentrepalavras e os acentos e as cedilhas tambem tendem a cair
e a crise e tudo atinge
otempodasvacasgordasacaboueaescritamurchou
est tud em cris

sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2009

11ª Crónica no Semanário Transmontano

Já são 11 as crónicas publicadas pelo administrador deste blog no Semanário Transmontano. Com o enigmático título de O salvador, o socrático e o fumador, esta crónica, elaborada num suposto formato de alegoria, foge um pouco àquilo que tem sido escrito no Semanário Transmontano. Por isso é ver, ler, comparar e, se desejarem, comentem. Muito obrigado.

(imagem retirada de www.drug.uz/cessation-of-smoking)

quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009

9 meses

Beijaram-se. Amaram-se. 9 meses depois tudo iria mudar.

Sem pisca

Quando o carro bateu, a morte anunciou-se sem fazer pisca.

Saída

No dia em que ela saiu de casa, ele saiu da vida.

segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2009

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As nuvens adensam
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Condensam
O mar agita
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Crepita
Os rios inundam
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Afundam