Um dia destes três homens juntaram-se à mesa de um café. Um era conhecido como salvador, o outro como socrático e o outro como fumador.
O socrático tratou logo de falar com o salvador:
— Como está? Estou muito contente que tenha aparecido. Sabe, eu conto consigo para ajudar a resolver os meus problemas e o senhor está muito bem referenciado. Acha que é capaz de me ajudar?
O salvador respondeu convictamente, e logo em duas línguas:
— Yes, I can. Sim, eu posso ajudá-lo.
O fumador tossiu, sacou de um cigarro e acendeu-o. Não pediu permissão, não ofereceu nenhum cigarro. Começou-o a fumar tranquilamente.
O salvador mordeu os lábios. Também lhe apetecia fumar mas tinha prometido à sua mulher que não o faria. Com a mão afastou o fumo e falou:
— O meu fardo é grande. Todo o mundo tem os olhos postos em mim. Esperam grandes coisas, talvez milagres. Eu já disse que as coisas não vão ser fáceis mas mesmo assim todos acham que vou dar uma nova face ao mundo. Ou qualquer coisa assim parecida...
O socrático escutou-o atentamente e disse:
— Eu agora só sei que nada sei mas por favor não me desiluda. Como já lhe tinha dito, conto consigo para resolver os meus problemas. Eu sou apenas um pensador. Mas não pense que não sei agir e tomar medidas. Eu sei! Mas agora simplesmente não sou capaz. Você é?
Uma vez mais o salvador respondeu a mesma frase feita:
— Yes, I can. Sim, eu posso ajudá-lo.
O fumador riu-se. E a rir-se atirou fumo para a cara dos outros dois homens.
O salvador e o socrático entreolharam-se, baixaram a cabeça mas nada disseram. Foi o salvador que rompeu o silêncio:
— Eu tive uma visão. Eu tive um sonho. Comigo o mundo irá entrar num novo rumo, seguindo caminho para uma nova ordem mundial...
O socrático não resistiu:
— Depois de me ajudar poderei ser seu conselheiro, se desejar... É que eu também tenho visões e sei que triunfará e eu irei sair da fossa, como alguns costumam dizer. E depois tenho uma grande admiração por si, platonicamente falando, claro...
Naquele café pequeno o fumo transformara-se numa densa cortina de nevoeiro. O fumador continuava a fumar como se nada fosse com ele. O salvador não se conteve:
— Não é capaz de fumar o seu cigarro lá fora?
Num assomo de clarividência, o fumador respondeu entre várias tossidelas:
— Sei que não tenho respeito nenhum pelos outros quando fumo. Mesmo nos locais proibidos continuo a fumar mas no meu trabalho não o posso fazer. Mas vou para a varanda e ao abrir a porta deixo enregelar os meus colegas no inverno. Faço a mesma coisa no restaurante. Ah, e quando conduzo não me atrevo a sujar o cinzeiro do carro. Atiro as beatas pelas janela, o que no Verão não é nada aconselhável mas nem penso nisso...
Virando-se directamente para os dois homens, findou o seu breve discurso com uma tirada digna de um verdadeiro estadista:
— Salvador, salva o mundo, dá-lhe um novo rumo e eu deixarei de fumar. Socrático, segue as pisadas da tua inspiração e do teu método, resolve os teus problemas e eu deixarei de fumar. Conto com vocês. Até lá continuarei a fumar como se não houvesse amanhã...
Assim que acabou de falar, o fumador levantou-se e encaminhou-se para a porta de saída. Antes de lá chegar, o socrático não resistiu em fazer um pedido:
— Por favor, não me dá um cigarrinho?
O salvador também não se fez rogado:
— Já agora não me arranja um?
Ainda envolto em fumo, o fumador troçou:
— Eu sabia! Afinal são como eu. Logo você não é nenhum salvador e você de socrático só tem o pedestal. Passem bem.
Em silêncio, e sem cigarros, permaneceram meditativos por uns tempos. Uma vez mais o socrático rompeu o silêncio:
— Então, vai mesmo mudar o mundo, não é verdade? E vai ajudar-me, não é assim? Hum, e também vai conseguir deixar de fumar, certo?
Ainda a pensar no cigarro que não fumou, o salvador só conseguiu balbuciar uma tímida resposta bilingue:
—No, I can’t. Não, acho que não sou capaz.
Nota final: nunca saberemos qual foi o não do salvador; terá sido um não à salvação do mundo?; terá sido uma recusa em ajudar o socrático?; ou terá sido a constatação de que afinal não iria conseguir deixar de fumar? Seja qual for o não, só o futuro o poderá desvendar. Ou talvez não.
(este texto foi primeiramente publicado como crónica no semanário transmontano, podendo também ser lido aqui)