sábado, 11 de Julho de 2009

Matar o tempo

Georgina passava algum tempo na internet, em conversas da apanhada e das escondidas. Com homens ou com mulheres. Com muitos ao mesmo tempo. Ou então a sós e em privado.
Divertia-se em conversetas tecladas, que muitas vezes roçavam o picante. Por mais do que uma vez tocou-se e viu asteriscos e arrobas enquanto digitava frases feitas de grunhidos e sugestões. Mas, só uma ou duas vezes, esteve tentada a combinar um encontro. Uma vez com um homem. Outra vez com uma mulher.
Com o homem (do qual já não se lembrava do nickname) ainda acreditou que pudesse estar apaixonada. Nada de muito concreto mas foi algo que ainda lhe deu algumas noites mal dormidas.
Essa emoção cresceu como um leve incómodo sem rosto, uma voz dentro de si que, tal como as vozes dos seus companheiros cibernautas, não podia escutar. E que suposta voz seria essa? Talvez a voz da criança que ainda habitava o seu imenso corpo roliço. Talvez não fosse nada disso. Talvez não existisse nenhuma voz, nem sequer um murmúrio. Apenas um leve rumor que de vez em quando fazia estremecer o seu coração, tal como o vibrar de um telemóvel em modo de silêncio.
O que fazia era apenas matar o tempo dentro de si, fenómeno que era mais notório quando só ia para a cama com o sol a romper, isto sem ter dado pelo girar implacável dos ponteiros dos relógios.

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