7.00, o despertador toca. Uma mão desliga-o e volta a enfiar-se no quente da cama.
7.10, o despertador toca de novo. Apetece atirá-lo janela fora.
7.35, há alguém que salta da cama. Tem um olhar sonolento e tresloucado.
8.30, o trânsito está parado. Já passou a hora de comer qualquer coisa, de escolher roupa que não combina com nada, de lavar a cara, as mãos e os dentes e de sair de casa à pressa. Há quem tenha uma meia de cada cor. Repito, são 8.30 e o trânsito está parado.
9.25, e ainda falta encontrar lugar para o carro.
9.40, o carro ficou mal estacionado mas muito bem posicionado para ser dos primeiros a levar uma multa.
9.45, tenta-se esconder a irritação atrás de um forçado sorriso amarelo; dá-se os bons dias entre dentes. Que bom, é mais um dia de trabalho.
10.45, o almoço ainda vem longe e já foram bebidos 2 cafés. A agitação interior é muito e há quem se esforce por fingir que trabalha muito; as folhas excel estão abertas mas por baixo delas esconde-se o sempre palpitante msn, ou outro similar.
12.45, há sempre uma desculpa para se sair mais cedo: “Tenho dentista”, “A minha mulher está grávida”, “Rebocaram-me o carro”. Das 3 é bem provável que a última seja a menos falsa.
13.10, é sempre o mesmo menu mas mudar de restaurante está quieto. As alternativas são caras e não têm televisão. Que bom, que pratos com tão pouca gordura e fritos.
14.05, um uísque não faz mal a ninguém. Ok, um de mês a mês, agora vários ao dia já são capazes de fazer alguns estragos.
14.45, afinal sempre se trabalha. As secretárias estão cheias de papelada e os teclados dos computadores são martelados a um ritmo impressionante; há muita gente ao telefone. Gaita, já não há tempo para o msn.
16.15, acho que o chefe está a discutir com alguém. Hum, é com outro chefe. Vai sobrar para alguém, um subordinado, claro.
17.15, entre o ritmo do trabalho intenso mas oco, a ansiedade e a estupidez do chefe, há um AVC em progresso.
17.30, alguém cai para o lado, ninguém dá por nada.
17.45, que bom, está silêncio.
18.10, há uma ambulância do INEM estacionada em 2ª fila. Fantástico, os elevadores avariaram!
18.25, é oficial, alguém morreu com um AVC. Nas escadas um dos paramédicos tropeça e o morto rebola nas escadas.
18.28, hoje rebolei pelas escadas abaixo! Foi das coisas mais emocionantes que me aconteceram nos últimos tempos. Amanhã quero repetir!
18.29, afinal estou morto. Bah, o que é isso comparado com o que aconteceu às 8.30. Ou às 14.45. Ou às 16.15.
Faça-se Ctrl+Alt+Del e eis que aparece um novo dia. Há quem deseje ardentemente a hora 17.30 mas tem medo de confessar.