sexta-feira, 28 de Novembro de 2008

Semanário Transmontano - a 7ª crónica

Para muitos 7 poderá ser considerado um número mágico. Para mim é apenas o número da minha coluna no Semanário Transmontano. Como sempre, já está postada aqui e também já está publicada em papel. Na 7ª crónica falo de cidades criativas e de cidades eco. Leiam e comentem. Muito obrigado.

terça-feira, 25 de Novembro de 2008

Sair da gaveta

Estou fechado numa gaveta. Está escuro. Tenho companhia mas nada se mexe. De vez em quando a gaveta abre-se e o seu interior inunda-se de luz. Nessas alturas rebolo um pouco, chocando com o que se encontra no interior da gaveta. Acho que por vezes passo por cima de algo mas não sei bem o que é.
Quando estou fechado, todos os sons são mais distantes e baços. São vozes e barulhos típicos da divisão onde me encontro. Frequentemente também há barulhos de máquinas e de água a correr.
Sinto-me um inútil. Nunca fui usado para aquilo que realmente sirvo. Aliás, quase tenho vergonha de dizer que a única vez que saí da gaveta foi para atingir alguém na cabeça.
Foi tudo tão rápido. A gaveta abriu-se e uma mão suave mas firme agarrou-me por uma das minhas extremidades. Fui levado pela casa até à porta da entrada. Assim esta se abriu, a mão suave e firme ergueu-me e, com violência, bateu-me em algo duro. Não me doeu mas não foi algo muito agradável.
Bati nessa coisa dura – que depois percebi ser uma cabeça – por mais duas vezes. A 2ª foi a mais forte de todas e quase que me separei da extremidade agarrada pela mão. A 3ª batida já foi de raspão pois o corpo que tinha a cabeça no seu topo tombou no chão. O baque foi surdo, mais abafado do que os clonks desferidos na cabeça.
Fiquei com a sensação que alguma coisa esguichou mas naquele ambiente obscurecido não percebi bem o que era.
Sei que a mão – de uma mulher – me levou de volta para a cozinha e me passou por água fria. Estranhei. A água parecia ser vagamente salgada, não sei porquê. Depois fui embrulhado num pano e atirado de novo para a gaveta.


Eu não sabia, mas hoje vai ser um dia muito diferente para mim pois vou sair da gaveta.
Sei que me vão colocar num saco de plástico que depois será selado. Mais tarde, depois de estar numa prateleira com objectos que nunca vi na minha vida, irei ser apresentado como prova de algo muito importante.
Tenho a certeza que ficarei bastante contente pois de uma coisa inútil, escondida numa gaveta, terei todas as luzes e atenções centradas em mim.
Finalmente poderei dizer que vale a pena ser um rolo da massa.

(imagem retirada daqui)

sexta-feira, 21 de Novembro de 2008

17.30

7.00, o despertador toca. Uma mão desliga-o e volta a enfiar-se no quente da cama.
7.10, o despertador toca de novo. Apetece atirá-lo janela fora.
7.35, há alguém que salta da cama. Tem um olhar sonolento e tresloucado.
8.30, o trânsito está parado. Já passou a hora de comer qualquer coisa, de escolher roupa que não combina com nada, de lavar a cara, as mãos e os dentes e de sair de casa à pressa. Há quem tenha uma meia de cada cor. Repito, são 8.30 e o trânsito está parado.
9.25, e ainda falta encontrar lugar para o carro.
9.40, o carro ficou mal estacionado mas muito bem posicionado para ser dos primeiros a levar uma multa.
9.45, tenta-se esconder a irritação atrás de um forçado sorriso amarelo; dá-se os bons dias entre dentes. Que bom, é mais um dia de trabalho.
10.45, o almoço ainda vem longe e já foram bebidos 2 cafés. A agitação interior é muito e há quem se esforce por fingir que trabalha muito; as folhas excel estão abertas mas por baixo delas esconde-se o sempre palpitante msn, ou outro similar.
12.45, há sempre uma desculpa para se sair mais cedo: “Tenho dentista”, “A minha mulher está grávida”, “Rebocaram-me o carro”. Das 3 é bem provável que a última seja a menos falsa.
13.10, é sempre o mesmo menu mas mudar de restaurante está quieto. As alternativas são caras e não têm televisão. Que bom, que pratos com tão pouca gordura e fritos.
14.05, um uísque não faz mal a ninguém. Ok, um de mês a mês, agora vários ao dia já são capazes de fazer alguns estragos.
14.45, afinal sempre se trabalha. As secretárias estão cheias de papelada e os teclados dos computadores são martelados a um ritmo impressionante; há muita gente ao telefone. Gaita, já não há tempo para o msn.
16.15, acho que o chefe está a discutir com alguém. Hum, é com outro chefe. Vai sobrar para alguém, um subordinado, claro.
17.15, entre o ritmo do trabalho intenso mas oco, a ansiedade e a estupidez do chefe, há um AVC em progresso.
17.30, alguém cai para o lado, ninguém dá por nada.
17.45, que bom, está silêncio.
18.10, há uma ambulância do INEM estacionada em 2ª fila. Fantástico, os elevadores avariaram!
18.25, é oficial, alguém morreu com um AVC. Nas escadas um dos paramédicos tropeça e o morto rebola nas escadas.
18.28, hoje rebolei pelas escadas abaixo! Foi das coisas mais emocionantes que me aconteceram nos últimos tempos. Amanhã quero repetir!
18.29, afinal estou morto. Bah, o que é isso comparado com o que aconteceu às 8.30. Ou às 14.45. Ou às 16.15.
Faça-se Ctrl+Alt+Del e eis que aparece um novo dia. Há quem deseje ardentemente a hora 17.30 mas tem medo de confessar.

sexta-feira, 14 de Novembro de 2008

E vão 6 no ST

Já está postada na internet (e também publicada em papel), a minha 6ª crónica no Semanário Transmontano. Leiam e comentem, se quiserem, obviamente. Muito obrigado.
Relembro uma vez mais que fiquei sem a minha base de dados de e-mails. Para tal, os meus amigos e conhecidos (reais e virtuais) devem enviar os seus contactos para o meu mail secundário fbrunoc@gmail.com. Quando o meu computador de casa estiver bom (ou quando eu adquirir um almejado portátil) tratarei de os transferir para o meu e-mail principal. Uma vez mais, muito obrigado.

quarta-feira, 12 de Novembro de 2008

Aviso à navegação

O meu computador de casa resolveu-me pregar uma partida de mau gosto. Não sei o que aconteceu mas perdi todos os meus contactos pessoais e e-mails importantes. Para além do grande transtorno que isso me provocou, o meu outlook está às moscas. Para tal, tenho de o preencher. Quem me conhece (real ou virtualmente) pode enviar-me o seu e-mail para fbrunoc@gmail.com. Não é o meu e-mail principal mas para já dá-me mais segurança. Um aviso: pessoas que eu não conheço e que estejam viradas para o spam, esqueçam. Serão ignoradas e apagadas. Muito obrigado.

terça-feira, 11 de Novembro de 2008

A espera

Encrespado na gabardina, fumava cigarro atrás de cigarro na entrada do prédio. A chuva caía em gotas grossas, num ritmo certo. Nada a fazia parar. O pé batia no chão, ao ritmo de um nervosismo nada imaginário. Esperava apenas um sinal para agir: um raio de Sol. Infelizmente as previsões meteorológicas não previam Sol para esse dia nem para o seguinte. Não podia sair do seu posto até ordem em contrário e não era provável que o fossem render. Já tinha cumprido o serviço militar e por isso encarava a espera como um dever. Iria cumprir o que prometeu nem que apanhasse uma valente pneumonia. Mais valia isso do que uma bala na cabeça por abandono do seu lugar.

(clip de Clement Picon, da fantástica música Reckoner, dos Radiohead)

quinta-feira, 6 de Novembro de 2008

Tic-tac

“Tic.”
Fez o Tac quando o Tic saiu do Tic-Tac.
“Tac.”
Respondeu o Tic, esclarecendo o Tac.
“Quem te autorizou a entrares no meu Tic-Tac?”
“Tu, Tac!”
“Eu, Tic?!?”
“Sim, não vejo mais nenhum Tac por perto.”
“Mas o meu Tic-Tac não é para Tiques.”
“Isso é mentira, Tac. O teu Tic-Tac sem Tiques seria apenas um Tac e não há Tic-Taques sem Tiques.”
Por um longo momento o Tac não fez nem um Tic. Mas depois respondeu com veemência.
“Mas eu quero o meu Tic-Tac sem Tiques!”
“Desculpa, mas sem Tiques o teu Tic-Tac deixa de ser um Tic-Tac para apenas se tornar um Tac-Tac. E tu sabes bem que os Tac-Taques não funcionam.”
“Nem os Tic-Tiques!”
O Tac estava vermelho de raiva. Perder a razão para o Tic dava cabo do seu Tac.
“Sim, os Tic-Tiques também não funcionam sem os Taques, eu sei. Já reparaste no meu Tic-tac? Ele está sem ti, Tac, por isso não funciona, não faz Tic-Tac.”
Tac estava agora mais calmo.
“Hum, por isso é que o meu Tic-Tac também está mudo, certo? Tu já não estás dentro do meu Tic-Tac…”
“Estás a ver, Tac! É melhor tu voltares para o meu Tic e eu entrar de novo no teu Tic-Tac.”
Tac estava radiante.
“Percebo-te perfeitamente, Tic! Não há Tic sem Tac, nem Tac sem Tic, não é assim? Já não me lembrava que os Tiques e os Taques têm de estar juntos para fazerem Tic-Tac.”
“É isso mesmo, Tac!”
E foi assim que Tic entrou de novo no Tic-tac de Tac e Tac foi para o Tic-Tac de Tic. Mas, mesmo separados, cada qual no seu Tic-Tac estarão sempre juntos a fazer Tic-tac.
Tic.
Tac.
Tic.
Tac.
Tic.
Tac.
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