sexta-feira, 31 de Outubro de 2008

Um dia a casa vem abaixo

Estou numa casa de paredes erguidas. Tem gente lá dentro. E também secretárias, cadeiras e computadores. Mas está vazia. Estou numa casa de paredes erguidas. Ela tem grandes janelas de vidro que deitam para a rua. Mas raramente vemos a luz do Sol. Estou numa casa de paredes erguidas. São paredes duplas ou triplas mas quando nos encostamos a elas parecem feitas de esponja. Há muito vento lá fora mas são as correntes de ar no seu interior que as põem em perigo. Elas abanam constantemente, uns dias mais que outros. Acreditem. Um dia a casa vem abaixo. Provavelmente uma das paredes tombará sobre mim e eu irei sentir o seu peso mesmo que ela seja de cartão.

(imagem retirada daqui)

Uma mão cheia no ST

A minha 5ª crónica no Semanário Transmontano já está publicada no jornal e postada no seu site. Anda às voltas com aquilo que nem só o vento faz. Descubram aqui sobre o que eu estou a falar. Quem quiser ler e comentar, está à vontade. Muito obrigado.

sexta-feira, 24 de Outubro de 2008

A 4ª crónica no Semanário Transmontano

Já está publicada em papel, e também inserida no site do Semanário Transmontano, a minha 4ª crónica. Nela fala-se da aldeia de Cambedo, aflorando-se ao de leve o massacre de 1946 (pesquisem mais no google sobre este facto praticamente desconhecido). Na crónica também se fala do mirandês, a 2ª língua oficial de Portugal. Muito obrigado.

segunda-feira, 20 de Outubro de 2008

Bem ou mal passado?

— Vou sair de casa.
Um prato cai. Parte-se. Quebra-se o coração, um desenho no seu centro. Comida e louça partida estão espalhadas no chão da cozinha.
— Ouviste o que disse?
O olhar perde-se para fora da janela.
— Não gosto da tua comida. É sempre muito gordurosa. O prato escorregou-me das mãos.
As lágrimas escorrem, salgando os restos de um frango assado, que agora está servido na tijoleira.
— Vou sair de casa.
A frase repete-se como quem repete de novo um prato.
O olhar não sai lá de fora.
— Fartei-me.
— Acredito. Também eu estou farto deste frango e dos pratos com corações também.
— Nunca falas sobre o que eu falo.
Agora as lágrimas são como grossas gotas de chuva.
— Foi disso que me fartei.
— Pois...
O olhar continua lá fora.
— Sabes, está um lindo dia lá fora. Infelizmente não se destina a nós…
O pranto e os soluços são intensos.
— Vou fazer outra coisa qualquer. Queres? Depois podemos dar uma volta. Se ficarmos mais tempo em casa tu vais continuar a dizer coisas incoerentes e eu vou partir mais pratos.
— Desisto. Tu não me escutas mesmo!
— Queres um hambúrguer? Bem ou mal passado?

sexta-feira, 17 de Outubro de 2008

Pietá

Os seus longos cabelos louros balouçavam à brisa fresca e suave que entrava pela janela entreaberta do quarto. Roçavam gentilmente na nuca do homem, luzidia e molhada de suor.
A mulher estava sentada na cama e contemplava o homem que adormecia no seu regaço. Encontravam-se os dois nus, depois de uma noite em que o amor esteve activo e o sono fugidio.
O cabelo roça uma vez mais na nuca do homem mas este não acorda. A mulher rasga um sorriso e acaricia-lhe a cabeça.
“Se todas as noites fossem assim, se todos os homens fossem assim, se todo o amor fosse assim, eu estaria no paraíso.”

(imagem retirada daqui, sendo a reprodução fotográfica da escultura Pietá, de Michelangelo)

Não há 2 crónicas sem 3

Como o prometido é devido, já está publicada/postada a minha 3ª crónica no Semanário Transmontano. Esta tem como pano de fundo o projecto de uma Eurocidade (sabe o que é?). Leiam e opinem. Muito obrigado.

domingo, 5 de Outubro de 2008

Mudança de visual 2

Foi um parto com pouca dor, o new look deste blog. Agora está com um visual mais sóbrio, continuando a ser muito fácil de navegar. Entretanto, há novos blogs e sites ligados ao uma por dia. É só espreitarem as ligações diárias, agora na coluna da direita. Bons blogs e boas leituras. Nem que sejam umas linhas por dia.

sábado, 4 de Outubro de 2008

Dark Fader

No distante reino das outras
forças,
a alma vai seca e danada.
Queira a mente reverter
o fluxo,
uma pedrada na água parada.

De negro pinta-se o céu
e o universo,
e flutua-se no limbo, desajustado.
No olhar de um louco, dorme
o solitário,
e o som já se escuta pesado.

Documentos secretos voam
pelos ares,
o desespero de não encontrar.
Escasseia a memória do dia
de ontem,
esse, travado no viajar.

E na aurora negra e infalível,
poderosa descendo,
riscam-se todos os momentos.
Não há lugar para bons,
nem maus,
apenas a presença dos portentos.

(para ouvir, bem alto, ao som de Bass Terror/Tetragammon)

quinta-feira, 2 de Outubro de 2008

A 2ª crónica no Semanário Transmontano

A 2ª crónica no Semanário Transmontano já está publicada no site do jornal, e também estará na edição de papel. Leiam-na neste link e deixem um comentário, se quiserem. Recordo que o nome da minha coluna é Cravo&Ferradura. Haverá mais crónicas futuras, eventualmente uma nova todas as semanas. Muito obrigado.

Mudança de visual

Farto das bolinhas e da cor escura, o administrador deste blog decidiu mudar o visual do mesmo. É provável que nos próximos dias possam ocorrer ajustes de algumas cores de textos e links mas no essencial este é o new look do UMA POR DIA.
Espero que gostem e que continuem a visitar este blog.
Nem que seja uma vez por dia.
Muito obrigado.

“É essencial divertir-se.”

“É essencial divertir-se.”
Um dia destes vi esta frase escrita num folheto publicitário de um produto qualquer, nem sei qual. É uma boa deixa para a vida. A vida em geral, não apenas a boa, que essa é coisa que pouca gente experimentou.
Li o folheto na diagonal mas conclui que se tratava de publicidade enganosa pois a tal frase “É essencial divertir-se.” não trazia instruções sobre os passos a dar para ficarmos mais leves e descontraídos. Era apenas uma frase para chamar à atenção, para apanhar os incautos que andam por aí, pela vida.
Acredito que muito deles não se deram ao trabalho de ver se havia instruções ou não. Logo ficaram-se apenas pela promessa e adquiriram esse produto (ou serviço, não sei bem), julgando que por esse simples facto iriam ter o caminho para a diversão. Afinal, ficaram-se apenas pelo supérfluo. O essencial não vem em folhetos. Digo eu.

quarta-feira, 1 de Outubro de 2008

O ABC de todos os dias

Os dias de B eram como os dias de A, que eram como os dias de C. Quando A, B e C se juntavam ao fim-de-semana invariavelmente falavam sobre os dias passados. Depressa concluíam que os seus dias eram sempre iguais. Numa das últimas conversam que tiveram juntos, A, B e C notaram que os finais dos seus dias iam escurecendo cada vez mais. Não tinha nada a ver com o facto de serem dias de Outono, sendo cada vez mais curtos. E também não tinha nada a ver com a mudança da hora. Simplesmente, nos últimos tempos, as horas terminais dos dias eram cada vez mais penosas, estando envolvidas numa névoa escura e gelatinosa.
Para A, B e C isso significava um mau pressentimento, que parecia antecipar o escapulir da esperança dos seus dias. Os dias de A, B e C continuariam a ser como todos os outros dias anteriores mas agora em tons gradualmente mais baços, sem brilho e impedidos da possibilidade de se avistar uma luz verde (ou de outra cor qualquer) nos minutos iniciais de cada novo dia.
No último fim-de-semana A, B e C chegaram a uma terrível conclusão: os seus dias, e por extensão os dias de D, E, F, G, H, I, J, K, L, M, N, O, P, Q, R, S, T, U, V, W, X, Y e Z, caminhavam para um vórtice escuro e redemoinhado, sem ponta de luz.
Que A, B e C possam ser poupados a esse nefasto espectáculo nem que para tal tenham eles mesmos de construir outros dias, completamente diferentes, de A a Z.