sábado, 31 de Maio de 2008

Mulher sobre a mesa

Abri a revista e lá estava ela, esparramada entre rendas e veludos. As luzes da sala incidiram sobre o seu corpo quase despido mas logo se apagaram ao virar da página. Acendi a luz vermelha do candeeiro de mesa e a página voltou atrás. Ela piscou-me o olho e eu não fui capaz de fechar a revista. Ficou para sempre aberta naquela mesa do restaurante, com a luz vermelha ligada.
"Pagas-me um copo?", perguntou-me sem pudor. "Não mas ofereço-te uma garrafa. Guarda-a contigo e beberei um copo da próxima vez que cá vier", respondi com uma espécie de calma firmeza própria das estátuas. Levantei-me e dirigi-me à saída. O reflexo vermelho da luz acompanhou-me até à porta mas extinguiu-se assim que saí para a rua. Fiquei faminto. Da próxima vez levarei a revista comigo. Quero uma mulher sobre a mesa da minha casa e esta parece-me a melhor maneira de ter uma. Com luz vermelha, e sem gastar um cêntimo, poderei ficar de barriga cheia.

(foto de Bruno Cunha)

sexta-feira, 16 de Maio de 2008

Miau

A gata do meu vizinho arranha o meu sofá. Ela entra pela porta da varanda, que está sempre entreaberta, e antes de se aninhar na carpete resolve afiar as unhas no sofá.
Não tenciono fazer queixa ao meu vizinho. A gata sempre é uma ténue substituição da minha ex-mulher. Desde que ela se foi embora deixo sempre a porta da varanda aberta. Ao princípio ainda tinha a esperança que a minha ex-mulher pudesse reentrar em casa por aí, aconchegando-se no sofá e esperando por mim de uma forma sonolenta mas felina. É claro que essa esperança era apenas fruto do desejo e da minha saudade. Logo compreendi que a esperança pode ser algo vão mas, mesmo assim, não fechei a porta da varanda.
Um dia, ao chegar tarde a casa, e antes que tivesse tempo de acender a luz do hall da entrada, algo sorrateiro roçou pelas minhas pernas. Apanhei um susto tão grande que não consegui dar com o interruptor da luz. Mas fiquei mais tranquilo quando essa coisa furtiva fez soar um miado. Assim que abri a luz uns incríveis olhos azuis cravaram-se em mim.
Foi assim que travei conhecimento com a gata do meu vizinho e desde esse dia que ela passa muito tempo em minha casa, estando à vontade para afiar as unhas no meu sofá e presentear-me com uma ou outra suave arranhadela. Em contrapartida eu faço-lhe festas e ofereço-lhe uns biscoitos para gato.
Ah, se todas as relações fossem assim tão simples ainda hoje a minha ex-mulher seria única felina da casa. É claro que nestas coisas há sempre alguém que sofre e neste caso o sofá está sempre a sofrer. Comigo e com a minha ex-mulher suportava as inúmeras cambalhotas amorosas, com a gata está desprotegido das suas cortantes investidas. Nada é perfeito. Miau.

quinta-feira, 15 de Maio de 2008

Retrato em dia de chuva

Da ampla janela a toda a altura da parede avisto o perfil da auto-estrada. Os automóveis passam como que cortados ao meio, os pneus escondidos pelos rails de protecção, parecendo apenas deslizar.
Para além das gotas de chuva direita num dia em que o céu se esconde num tapete uniforme e cinzento, o spray que as viaturas levantam destaca-se contra o fundo verde e castanho da encosta do outro lado do vale.
De vez em quando o Sol parece querer romper o tecto cinzento mas logo as nuvens se aprontam para o deixar completamente escondido dos nossos olhos.
No topo da encosta duas gruas amarelas e uma correnteza de prédios baços perfilam-se como estátuas silenciosas, não podendo evitar as gotas de água que se entranham nas fendas dos edifícios e que descascam a pintura dos finos esqueletos metálicos.
É um dia de Primavera. É um dia cinzento de um Inverno que não baixa os braços e teima em não partir.
As árvores que compõem a paisagem não se agitam com os pingos da chuva. Ladeiam uma grande superfície de cimento da cor do dia. Aqui e ali, a sua fria monotonia é pintalgada de rectângulos amarelos e a três dimensões, autocarros estancados e que ainda não se fizeram à lenta corrente do trânsito que começa a engrossar.
A chuva cai há mais de três horas, uma bênção de S. Pedro para atrasar as labaredas de um Verão que é sempre uma incógnita. Um autocarro põe-se em movimento. De lado, por cima de uma das janelas, umas letras de um luminoso amarelo compõem a palavra RESERVADO.
O dia pediu algumas horas cinzentas num retrato de cores esbatidas que eu mentalmente tiro da ampla janela a toda a altura da parede.

segunda-feira, 12 de Maio de 2008

Ansiedades (flash 5)

Tamborilava os dedos, agitava as pernas, rodava a cabeça constantemente e de 10 em 10 segundos olhava para o relógio de parede. Tinham-lhe dito para aguardar 5 ou 10 minutos. Calculou que estivesse ali há mais de 20 minutos mas não tinha a certeza. O relógio de parede estava num tempo imutável, tendo parado às 15h35m de um dia incerto. Há quem diga que acontecimentos excepcionais têm o condão de estancar o tempo, nem que seja por breves momentos. Talvez por isso todos os músculos do seu corpo se imobilizaram quando a enfermeira se dirigiu a ele numa voz agradável mas neutra:
— Parabéns, é uma menina.

segunda-feira, 5 de Maio de 2008

Ansiedades (flash 4)

Era dia de limpeza da sala. O espaço estava vazio mas cheio de pó. Comecei num dos cantos, munido de 1 aspirador. Terminei a lida precisamente no sítio onde a tinha iniciado. Quando lá cheguei, o chão estava cheio de pó outra vez. Recomecei tudo de novo. Para de novo voltar ao ponto de partida. Estava a ficar ansioso. Aspirava mas tudo voltava ao mesmo, como num círculo vicioso. Não havia volta a dar. Fechei as janelas da sala e o pó não entrou mais. No dia seguinte regressaria para aspirar de novo. E, provavelmente, só o faria uma única vez.