Da ampla janela a toda a altura da parede avisto o perfil da auto-estrada. Os automóveis passam como que cortados ao meio, os pneus escondidos pelos rails de protecção, parecendo apenas deslizar.
Para além das gotas de chuva direita num dia em que o céu se esconde num tapete uniforme e cinzento, o spray que as viaturas levantam destaca-se contra o fundo verde e castanho da encosta do outro lado do vale.
De vez em quando o Sol parece querer romper o tecto cinzento mas logo as nuvens se aprontam para o deixar completamente escondido dos nossos olhos.
No topo da encosta duas gruas amarelas e uma correnteza de prédios baços perfilam-se como estátuas silenciosas, não podendo evitar as gotas de água que se entranham nas fendas dos edifícios e que descascam a pintura dos finos esqueletos metálicos.
É um dia de Primavera. É um dia cinzento de um Inverno que não baixa os braços e teima em não partir.
As árvores que compõem a paisagem não se agitam com os pingos da chuva. Ladeiam uma grande superfície de cimento da cor do dia. Aqui e ali, a sua fria monotonia é pintalgada de rectângulos amarelos e a três dimensões, autocarros estancados e que ainda não se fizeram à lenta corrente do trânsito que começa a engrossar.
A chuva cai há mais de três horas, uma bênção de S. Pedro para atrasar as labaredas de um Verão que é sempre uma incógnita. Um autocarro põe-se em movimento. De lado, por cima de uma das janelas, umas letras de um luminoso amarelo compõem a palavra RESERVADO.
O dia pediu algumas horas cinzentas num retrato de cores esbatidas que eu mentalmente tiro da ampla janela a toda a altura da parede.