
Ao 1º agrafo, mal senti que tinha sido removido.
Ao 2º agrafo, a picada insinuou-se.
Ao 3º agrafo, senti um pequeno ferrão, uma dor finíssima.
Ao 4º agrafo, à dor do anterior somou-se a sensação deste, ficando registada no meu cérebro como um pequeno ponto lancinante, a perdurar na memória dos meus centros nervosos.
Ao 5º agrafo, por momentos tudo se esbateu. Nem dor nem sensação de picada, nada.
Ao 6º agrafo, a sensação de picada cirúrgica regressou, agora ainda mais intensa.
Ao 7º agrafo, à dor juntou-se uma pequena bola de sangue muito escuro. Ela desaparece numa compressa muito suave.
Ao 8º agrafo, penso nestes momentos os mais breves segundos de eternidade, seja o que isso for.
Ao 9º agrafo, tento abstrair-me, tento levitar-me daquela marquesa, daquele desconforto. Em vão.
Ao 10º agrafo, finco os meus dedos no lençol.
Ao 11º agrafo, finco os dedos da outra mão, também no lençol.
Ao 12º agrafo, já não tenho mais dedos para fincar.
Ao 13º agrafo, sustenho a respiração para não gemer.
Ao 14º agrafo, quase suspiro por uma enfermeira de decote sensual, para me distrair da dor.
Ao 15º agrafo, volto à realidade: tenho um médico à minha frente, não uma enfermeira boazona.
Ao 16º agrafo, continuo a pensar nessa hipotética enfermeira.
Ao 17º agrafo, na minha imaginação a enfermeira desaparece.
Ao 18º agrafo, lembro-me que mal sei assobiar; sai-me sempre uma coisa aguda mas de sopro difuso e som palerma.
Ao 19º agrafo, fico irritado com o meu clube; uma vez mais perdeu!
Ao 20º agrafo, que se lixe a bola! Os pequenos pontos de perfurante dor continuam.
Ao 21º agrafo, olho pela janela do consultório. Anoitece mas não vejo o pôr do sol. A nossa estrela esconde-se atrás de prédios.
Ao 22º agrafo, já não há sol mas eu continuo a ver estrelas!
Ao 23º agrafo, desisto de ter dor.
Ao 24º agrafo, não penso em nada. Mas sei que isso não deve ser uma coisa zen. Mas se calhar está lá próximo.
Ao 25º agrafo, não há zen que me valha; a dor fê-lo desaparecer.
Ao 26º agrafo, mais um pingo de sangue, agora ainda mais pequeno mas não tão escuro. Também desaparece numa compressa suave.
Ao 27º agrafo, gemo mas não emito som.
Ao 28º agrafo, reparo que já não finco os lençóis.
Ao 29º agrafo, reparo que finco de novo os lençóis.
Ao 30º agrafo, lembro-me de uma praia.
Ao 31º agrafo, a praia continua lá.
Ao 32º agrafo, estou na tal praia, deitado de barriga para cima, nu.
Ao 33º agrafo, afinal a enfermeira regressou, também nua.
Ao 34º agrafo, mordo os lábios; desaparece a praia, a enfermeira, o sol. É noite escura.
Ao 35º agrafo, calculo que tenho algo de zen, de novo: olho para o tecto do consultório; é imaculadamente branco, sem uma racha, nem manchas de humidade.
Ao 36º agrafo, finalmente reparo no médico. Está curvado sobre a minha perna e tem um pequeno alicate na mão.
Ao 37º agrafo, sinto-me como um daqueles seres de ficção científica, meio homem, meio máquina. Felizmente não vejo nem serras nem brocas por perto.
Ao 38º agrafo, parece que estou há uma eternidade deitado na marquesa.
Ao 39º agrafo, porra, porque chamam marquesa a esta cama estreita? Tenho de ir ver isso na internet.
Ao 40º agrafo, puta que pariu a marquesa! Este foi o agrafo que mais me custou!
Ao 41º agrafo, merda, menti! Este custou ainda mais!
Ao 42º agrafo, penso em trigémeos: este agrafo também não foi pêra doce.
Ao 43º agrafo, finalmente estou quase no fim. Mas este também doeu.
Ao 44º agrafo, a enfermeira apareceu de novo, maliciosa. Pisca-me o olho.
Ao 45º agrafo, ufa, que alívio. Mas ao mesmo tempo fico triste: a enfermeira começava a desapertar a bata. Tudo se esfuma. O médico diz: “Pronto, pode-se vestir”.
(imagem retirada de www.machine-solution.com/prodinfo.asp?number=ARROW+HT65+STAPLES)