quarta-feira, 30 de Abril de 2008

Assobio mudo

Uma vez mais peço desculpas por ainda não ter dado continuidade à história O homem do assobio, nem ter colocado qualquer outro post.
A proverbial falta de tempo e de disponibilidade têm-se evaporado muito rapidamente e deixam este blog silencioso.
Esperemos que o ruído literário se faça ouvir em breve, solidificando-se em novos contos e/ou poemas.
Muito obrigado e continuem a visitar este blog, vasculhando as estantes do mesmo, nem que seja uma vez por dia.

terça-feira, 22 de Abril de 2008

Homem gasoso

Arlete andava feliz. Finalmente tinha encontrado um homem meigo, inteligente, divertido, bonito. E ainda por cima bom amante.
Arlete não acreditava na sorte que tivera. E por isso morria de ciúmes, temendo sempre que outra mulher roubasse o seu amor.
Arlete telefonava-lhe de hora a hora, perguntando onde estava, com quem estava, o que estava a fazer. À noite, quando estavam juntos, repetia as mesmas perguntas. Na cama usava e abusava do “És meu, és meu, és meu”, principalmente no clímax.
Aos ciúmes de Arlete, o seu homem sorria sempre. Mas era um sorriso enigmático, que se esfumava mal ela virava costas.
Um dia, roída pela desconfiança, Arlete seguiu o seu homem. Ele tinha-lhe dito que ia jantar com uns amigos e depois talvez fosse beber um copo a um bar qualquer.
Disfarçada com uma peruca e um chapéu estranho, entrou no restaurante. De facto, o seu homem estava com vários amigos, todos homens e todos comiam e bebiam e falavam alto. Tal como nas outras mesas do restaurante lotado.
Por momentos, Arlete ficou aliviada mas depois lembrou-se que depois eles iriam a um bar beber um copo. Um bar! De certeza que iriam engatar mulheres!
Com o ciúme a afogueá-la por dentro, esperou que os homens saíssem do restaurante e depois seguiu-os até ao bar. Não entrou logo. Esperou um pouco e viu que algumas mulheres também entravam. Iam vestidas para seduzir: roupas justas, ombros à mostra, decotes, pernas mais longas, penduradas em provocantes saltos altos.
Arlete não foi capaz de se conter e entrou também no bar. Ainda não estava muito cheio o volume da musica já obrigava que as pessoas falassem mais coladas umas às outras.
Arlete não viu logo o seu homem. O seu coração parecia um comboio descontrolado a bater no seu peito. Foi até a um dos balcões e pediu algo bem forte. E foi então que o viu.
O seu homem tinha uma mão pousada na anca de uma bela mulher. Na outra mão tinha um copo cheio. Falava ao ouvido dela de uma forma nitidamente cúmplice.
Arlete não se conteve.
— Tira já daí a pata! E tu põe-te a milhas do meu homem!
A voz de Arlete fez-se ouvir tão alto que por breves momentos todas as pessoas presentes no bar viraram-se na sua direcção.
Apesar da surpresa e do susto iniciais, o homem de Arlete recompôs-se e colocou o seu melhor sorriso nos lábios.
— Querida, esta é a minha irmã! Já te falei dela mas nunca surgiu a oportunidade de ta apresentar. Beatriz, esta é a Arlete. Arlete esta é a Beatriz.
De boca aberta, num escancarado espanto, Arlete mal conseguiu articular uma palavra.
— Desculpem...
O bar retomou a sua efervescência normal e o homem de Arlete segredou-lhe ao ouvido:
— Querida, vai andando, eu já vou ter contigo, ok?
Sem mais uma palavra, Arlete rodou os calcanhares e caminhou-se na direcção da porta, tentando não reparar nos muitos olhares que teimavam em persegui-la.
Nessa noite, Arlete esperou pelo seu homem. E nas noites seguintes também. Arlete tentou tudo para o encontrar mas ele não tinha deixado nem um traço: mudou de números de telefone, mudou de casa, mudou de emprego. Mas ninguém sabia, ou queria, dizer-lhe para onde ele tinha ido. Ainda correu o boato que ele tinha saído do país com uma bela mulher mal tal não passou de uma pista infundada.
Sem nenhuma explicação, o seu homem por e simplesmente tinha-se evaporado para sempre.

segunda-feira, 14 de Abril de 2008

45 agrafos

Ao 1º agrafo, mal senti que tinha sido removido.
Ao 2º agrafo, a picada insinuou-se.
Ao 3º agrafo, senti um pequeno ferrão, uma dor finíssima.
Ao 4º agrafo, à dor do anterior somou-se a sensação deste, ficando registada no meu cérebro como um pequeno ponto lancinante, a perdurar na memória dos meus centros nervosos.
Ao 5º agrafo, por momentos tudo se esbateu. Nem dor nem sensação de picada, nada.
Ao 6º agrafo, a sensação de picada cirúrgica regressou, agora ainda mais intensa.
Ao 7º agrafo, à dor juntou-se uma pequena bola de sangue muito escuro. Ela desaparece numa compressa muito suave.
Ao 8º agrafo, penso nestes momentos os mais breves segundos de eternidade, seja o que isso for.
Ao 9º agrafo, tento abstrair-me, tento levitar-me daquela marquesa, daquele desconforto. Em vão.
Ao 10º agrafo, finco os meus dedos no lençol.
Ao 11º agrafo, finco os dedos da outra mão, também no lençol.
Ao 12º agrafo, já não tenho mais dedos para fincar.
Ao 13º agrafo, sustenho a respiração para não gemer.
Ao 14º agrafo, quase suspiro por uma enfermeira de decote sensual, para me distrair da dor.
Ao 15º agrafo, volto à realidade: tenho um médico à minha frente, não uma enfermeira boazona.
Ao 16º agrafo, continuo a pensar nessa hipotética enfermeira.
Ao 17º agrafo, na minha imaginação a enfermeira desaparece.
Ao 18º agrafo, lembro-me que mal sei assobiar; sai-me sempre uma coisa aguda mas de sopro difuso e som palerma.
Ao 19º agrafo, fico irritado com o meu clube; uma vez mais perdeu!
Ao 20º agrafo, que se lixe a bola! Os pequenos pontos de perfurante dor continuam.
Ao 21º agrafo, olho pela janela do consultório. Anoitece mas não vejo o pôr do sol. A nossa estrela esconde-se atrás de prédios.
Ao 22º agrafo, já não há sol mas eu continuo a ver estrelas!
Ao 23º agrafo, desisto de ter dor.
Ao 24º agrafo, não penso em nada. Mas sei que isso não deve ser uma coisa zen. Mas se calhar está lá próximo.
Ao 25º agrafo, não há zen que me valha; a dor fê-lo desaparecer.
Ao 26º agrafo, mais um pingo de sangue, agora ainda mais pequeno mas não tão escuro. Também desaparece numa compressa suave.
Ao 27º agrafo, gemo mas não emito som.
Ao 28º agrafo, reparo que já não finco os lençóis.
Ao 29º agrafo, reparo que finco de novo os lençóis.
Ao 30º agrafo, lembro-me de uma praia.
Ao 31º agrafo, a praia continua lá.
Ao 32º agrafo, estou na tal praia, deitado de barriga para cima, nu.
Ao 33º agrafo, afinal a enfermeira regressou, também nua.
Ao 34º agrafo, mordo os lábios; desaparece a praia, a enfermeira, o sol. É noite escura.
Ao 35º agrafo, calculo que tenho algo de zen, de novo: olho para o tecto do consultório; é imaculadamente branco, sem uma racha, nem manchas de humidade.
Ao 36º agrafo, finalmente reparo no médico. Está curvado sobre a minha perna e tem um pequeno alicate na mão.
Ao 37º agrafo, sinto-me como um daqueles seres de ficção científica, meio homem, meio máquina. Felizmente não vejo nem serras nem brocas por perto.
Ao 38º agrafo, parece que estou há uma eternidade deitado na marquesa.
Ao 39º agrafo, porra, porque chamam marquesa a esta cama estreita? Tenho de ir ver isso na internet.
Ao 40º agrafo, puta que pariu a marquesa! Este foi o agrafo que mais me custou!
Ao 41º agrafo, merda, menti! Este custou ainda mais!
Ao 42º agrafo, penso em trigémeos: este agrafo também não foi pêra doce.
Ao 43º agrafo, finalmente estou quase no fim. Mas este também doeu.
Ao 44º agrafo, a enfermeira apareceu de novo, maliciosa. Pisca-me o olho.
Ao 45º agrafo, ufa, que alívio. Mas ao mesmo tempo fico triste: a enfermeira começava a desapertar a bata. Tudo se esfuma. O médico diz: “Pronto, pode-se vestir”.

(imagem retirada de www.machine-solution.com/prodinfo.asp?number=ARROW+HT65+STAPLES)

quinta-feira, 10 de Abril de 2008

O homem do assobio (parte 2)

Em Sirena nada se destaca: não é alta nem baixa, não é gorda nem magra, não é bonita nem feia, não anda nem bem vestida nem mal vestida. Sirena é uma mulher normal. Mas a sua normalidade acaba aí. Sirena anda sempre pela sombra, é esquiva e tem uma grande habilidade de mãos. Como não trabalha – pelo menos não se lhe conhece uma ocupação certa – Sirena tem de usar os seus dotes manuais para viver ou sobreviver. Ou algo assim parecido.
Na cidade onde vive não há loja que não conheça. Entra discretamente, dá uma volta ou duas e sai da mesma forma furtiva. Nessas suas deambulações Sirena nunca deixa mostrar as mãos. Esconde-as debaixo dos xailes escuros com que muitas vezes se veste. Esconde as mãos e outras coisas, dizem. Em muitos sítios onde entra há sempre um segurança atento aos seus movimentos, acompanhando-a para todo o lado, e as câmaras de vigilância seguem-na, prontas para fazer dela uma estrela dos noticiários das televisões. Mas, para Sirena, esse momento ainda não chegou. A verdade é que, quando Sirena sai de qualquer loja ou estabelecimento comercial, ao fim do dia a contabilidade nunca bate certo com o valor das vendas.
Não há testemunhas da destreza das mãos da mulher, circulando à boca pequena que ela nem sequer as têm.
“Atenção, vem aí a mulher das mãos invisíveis”, sussurram os frustrados seguranças quando a vêem entrar.
O facto é que nunca ninguém viu Sirena subtrair nada. Nem o homem do assobio, quando um dias destes se baixou para dar um laço num atacador desapertado.
Por breves momentos, deixou a sua preciosa pasta no chão. Foi a altura certa para Sirena entrar em acção, surripiando também o assobio de Titalis.

(continua em breve)

quarta-feira, 9 de Abril de 2008

O homem do assobio (parte 1)

Ao caminhar, Titalis arrasta um dos pés. Esse esforço parece ter um incentivo fora do comum: um irritante assobio agudo.
Quando anda pelas ruas da sua cidade, muitos já o adivinham antes de o ver.
“Lá vem o homem do assobio.”
O mais estranho é que poucos viram a sua a cara, pois Titalis traja sempre uma capa semelhante àquelas que muitos frades e monges usam. Esconde a cabeça no capuz e o corpo numa silhueta difusa no manto que quase lhe tapa os pés, o que confere ao seu andar um deslizar nada habitual de se ver.
“Lá vem o homem do capuz, lá vem o homem do manto, lá vem o frade coxo”, eis mais comentários que outros sussurram à sua passagem.
Debaixo do braço traz sempre uma pasta de couro, já muito enegrecida e em mau estado. Vocifera alto que são partituras de músicas suas.
Quando comunica aos 4 ventos a sua hipotética arte, pára e aponta a pasta para os céus, ajustando sempre o capuz, não vá este tombar para os ombros e desvendar a sua cara.
“Um dia a minha música vai ser conhecida em todo o mundo! Um dia...”
Nunca termina a 2ª frase. Aconchega o capuz, aperta a pasta de encontro ao corpo e põe-se de novo a caminho na sua arrastada marcha, não deixando que a sua presença se dilua na multidão graças ao inseparável assobio.
No entanto, um dia, o seu assobio deixou de se escutar. Um dia em que a sua pasta não o acompanhava debaixo do braço.

(continua em breve)