
— Despeje mais, se faz favor.
Atrás das vidraças amplas já se via o começo da noite, embora riscos laranja e rosa – resquícios do dia que findava – atravessassem os céus como pinceladas num quadro.
— Um pouco mais.
As pessoas acotovelavam-se perto de uma mesa rectangular, procurando chegar-se à frente para reclamar um copo de vinho e rapinar umas tapas indistintas ou uns amendoins rançosos.
Três meninas de fatos escuros e sem decotes explosivos serviam copos de vinho a quem os quisesse provar. A um canto da mesa alguém tentava dissertar sobre a bebida em questão mas era difícil escutá-lo. Uma das meninas empertigou-se com um dos provadores.
— Desculpe, já é o terceiro copo que lhe sirvo. Não pode ser! Assim não dá para toda a gente.
Metido no seu melhor fato domingueiro, mas muito coçado, esticou o braço, mostrando uma mão calejada e rugosa, que agarrava com firmeza o copo.
O homem não desarmou.
— Menina, despeje mais um copo porque um vinho como este eu nunca bebi e provavelmente nunca mais beberei outro igual.
A jovem fixou o homem e julgou ver um brilho quase a transbordar dos seus olhos e, pela última vez, serviu-lhe mais um copo cheio.
(imagem retirada de http://www.flickr.com/photos/katiew/107161419/)