quinta-feira, 31 de Janeiro de 2008

não devo

preso e contido
encarquilhado
mas não devo
sentir-me perdido

negativo e sombrio
amarfanhado
mas não devo
sentir-me vazio

pensativo e distante
transviado
mas não devo
sentir-me errante

solitário e nervoso
desamparado
mas não devo
sentir-me receoso

Monólogo para 1 copo vazio (derivação 2)

o copo a brilhar à luz da lua baça e depois alguém na penumbra da noite mansa mas densa despeja um líquido escuro

não se vê o rótulo da garrafa nem o brilho nos olhos do homem mas é certo que há um fogacho ténue na superfície vidrada do recipiente

na ânsia da bebida qualquer garrafa servia nem que fosse a do amoniacal aquela empilhada no extravasar da transbordante despensa de tão cheia e caótica tal como a vida de quem a agarrava e que já tinha pouco a que se agarrar

a princípio estranhou o sabor mas o delirium tremens tinha-lhe retirado há muito a lucidez

a garrafa caiu e o copo também

partiu-se a noite mansa e ténue em mil pedaços e o brilho da lua baça volatilizou-se

como qualquer tipo de álcool

Vudu

Ø

terça-feira, 29 de Janeiro de 2008

Monólogo para 1 copo vazio (derivação 1)

O reflexo da luz do candeeiro atravessa o copo, revelando uma transparente e vazia condição.
Ainda ontem estava cheio, matando de tinto quase todos os raios de luz, ora ébrios, ora sóbrios.
Não é o único em casa. Outros acotovelam-se numa baça penumbra, esperando que o brilho de uma luz ou de uma bebida transparente os conduza de novo para o claro reino dos mais de 0,5% de álcool no sangue, ou coisa assim.
Sopro num balão. Cheio de conhaque. A garrafa está como o copo. Vazia. Tal como a minha alma. Vendi-a a não sei quem. Eu troca tenho uma garrafeira cá em casa. Os copos foram oferta. Generosa. Empenhei-me para ter o que quero: copos a brilhar de cheios, que revelam uma transparente e vazia condição. Provavelmente a minha.

O-O

O-O
Vejo mais além
Do que o além
Assim, como eu
não há mais
ninguém
O-O
Óculos
Binóculos
Microscópios
Não me embaraçam
Não me cegam
Tornam-se obsoletos
Caricatos
Peças de museu
Não como eu
O-O
Vejo mais além
Do que o além
Assim, como eu
não há mais
ninguém

segunda-feira, 28 de Janeiro de 2008

Monólogo para 1 copo vazio

Tenho um copo de vinho para beber. Só mais um porque o que eu bebi não chega. A garganta continua seca mas não é a água que a vai saciar. Não quero nada com a água. Não acredito que faça rãs na barriga mas também não acredito que faça muito bem. Aqui na minha zona ela é muito calcária. Vejo isso pelos canos da máquina da roupa. Ou será a máquina da loiça? Já nem sei o que digo. Eu não tenho máquinas em casa, só um reles aspirador de parede. De resto, nem rádio, nem tv. Ah, tenho 1 frigorífico pequeno e um esquentador enegrecido. Afinal tenho algumas máquinas. São máquinas, não são? Preciso mesmo de um copo. Julgava que tinha ficado vinho no copo de ontem à noite. Afinal, bebi-o todo. O resto das garrafas estão empilhadas a um canto, na cozinha. Estão todas vazias. Acho que fui eu que as esvaziei. E esta dor de cabeça que não me larga. E tenho o estômago a rugir. Não devo comer há 3 ou 4 dias. Ou mais. Como calculava, tenho o frigorífico quase vazio. Está lá uma porcaria qualquer que cheira bastante mal. Não o vou abrir mais. Ao menos podia ter uma garrafita qualquer. Será que tenho alguma debaixo da cama? Também não tenho entrado no meu quarto. Tenho a ideia que há umas noites que durmo no sofá da sala. Tenho olhado para a parede onde antes estava uma estante com livros e uma tv. Não sei o que aconteceu à estante. Os livros estão espalhados por todo o lado mas também não tenho lido. Ah, como me apetece um copo! Tinha um copo de vinho algures. Tinha, pois... afinal está vazio. E agora? Vou à rua. A estas horas será que a loja de conveniência ainda está aberta? Uma garrafa, só preciso de uma garrafa! Qualquer coisa serve, desde que tenha álcool. Tenho um copo de vinho para beber. Só mais um porque o que eu bebi não chega. Nunca chega.

(clip dos Massive Attack, com Terry Callier na voz)

Diálogos mais que prováveis (4)

— Estou com vontade de...
— Vontade de quê?
— Vontade de...
— E isso é vontade de quê?
— É vontade de...
— Isso é muito vago. Concretiza...
— É apenas vontade de ter vontade...
— ‘Tás com a preguiça toda, é o que é...
— Sim, estou a amargurar-me na minha passividade.
— Mas já não é mau teres vontade de qualquer coisa.
— Não é qualquer coisa. É vontade de ter vontade, que é algo bem difícil!
— Se é! Mas por momentos receei que tivesses vontade de outra coisa...
— Mas também tenho. Só que tenho de muitas coisas...
— Como por exemplo?
— Sei lá! Vontade de, por exemplo...
— Gaita, já estou a ficar nervosa com essas vontades enigmáticas. Desembucha!
— Estou com vontade de conhecer o teu quarto...
— Isso é dos copos... tu até és gay...
— Caguei...
— Porquito.
— Adoro que me insultes...
— O que adoravas era que eu fosse do teu sexo...
— Achas?
— Tenho a certeza.
— Convencida! Mas és capaz de ter razão...
— Mas sou capaz de te convidar para dares uma vista de olhos ao meu quarto...
— Mas é só para dormir, certo?
— Certo. Mas pode ser que tenhas vontade de ter vontade e mais alguma coisa também...
— E eu é que estou com os copos. Vamos lá embora porque a música está a ficar horrível...

Justificação

Por falta de disponibilidade temporal (e também alguma falta de inspiração), o administrador deste blog pede desculpa pelo facto dos contos e dos poemas não serem postados com uma maior frequência. Esperamos, em breve, retomar a nossa produção literária para níveis mais regulares.
Muito obrigado pela vossa compreensão.

terça-feira, 22 de Janeiro de 2008

do alto da cama

zzzzzzzzzzzzzzz

do alto da cama

|=--|

tomba o travesseiro

=
=
=

e o sono chama
aquece por dentro
enquanto o meu nome
clama

zzzzzzzzzzzzzzz

lá no fundo,
no poço negro
dos sonhos,
esquece-se a mente
dos pensamentos
ausente

e, do alto da cama,
por mim
o meu amor
chama
em chama

|o--|

|vem até mim|

terça-feira, 15 de Janeiro de 2008

Zezinando (o regresso)

Armado até ao arejo,
beliscando as bolas baças,
costumava colher cebolas,
dando dicas aos doidos.
Estava empinada e estática,
a felpuda foice fatal.
Guardava a sua guilhotina
enquanto as horas hibernavam,
indo aos idos idiomas do Irão.
“Já não janto mais”.
Ligava-se a lembrança à lisura,
marcando malvadas maravilhas
e nenhuma nadava para o nada.
Onde se ouvia o otário?
“Porra, parei e picaram-me!”.
Quem é aquele querubim?
“Raios, roeram-me os rosmaninhos!”.
Santificada seja a sua sentença,
totalmente totalitária,
untada de urros de ursos.
Vira-se a verdasca no vazio:
XLAC, XLAC, XLAC;
e zurra Zezinando num zepelim.

Diálogos mais que prováveis (3)

— Vê só aquele palerma.
— Onde?
— Ali, naquele carro azul.
— O que é que tem?
— Acabou de atirar restos de maçã pela janela...
— Realmente, há cada um!
— E olha a tipa do carro cinzento?
— Qual carro cinzento? Só vejo carros cinzentos...
— Aquele ali, com as 4 bolinhas à frente...
— Ah, sim. O que tem?
— Acabou de atirar fora um lenço de papel, pareceu-me...
— Que gente!
— Enfim... e esta bicha já andava, não?
— Mete para a direita, já!
— Não me pressiones! Ia batendo!
— Ele que espere...
— O tipo está furioso...
— Bah, ele que se foda... olha, agora mete-te de novo na fila da esquerda.
— Ui, ia batendo de novo.
— Ias nada.
— Já estou a ficar nervosa. Tenho de fumar...
— Felizmente podes fumar no nosso carro. Agora já não se pode fumar em lado nenhum...
— Sim, é uma vergonha, agora perseguem-nos...
— É uma democracia musculada, é o que é...
— Olha-me esse palhaço, vai-se meter à minha frente!
— Ó CABRÃO, ONDE VAIS COM ESSA PRESSA TODA?
— Eh, eh, fechei bem o gajo... vê só a cara do tipo... olha, dá-me uma passa...
— Toma, acaba o cigarro.
— Ah, que maravilha... pronto, está fumado... deixa-me apagá-lo no cinzeiro.
— O quê? Estás louca? Manda isso pela janela! Não quero o cinzeiro do carro cagado!
— Como?
— Ouviste bem. E ainda por cima está a chover, não vais pegar fogo a nada.
— Mas... vou atirar isto pela janela? Parece-me mal?
— Parece mal uma ova! Estamos no nosso carro, podemos fazer o que quisermos!
— Mas...
— Mas sê discreta... baixa a janela toda e deita a beata fora como quem não quer a coisa...
— Bolas, mas chove a potes! Não vou abrir a janela!
— Dá cá essa merda!... Pronto, já está!
— O tipo de trás fez-nos sinais de luzes...
— Ele que se foda. Ó PALHAÇO!!!

sexta-feira, 11 de Janeiro de 2008

Seco-me

_\o/_

Seco-me
como 1 pequeno
sol

_\o/_

E apago-me
na penumbra
do dias
frios

_._

Até outro dia
Até outro sol

_\o/_

sexta-feira, 4 de Janeiro de 2008

Muralhas (2)

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A queda é eminente.

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Ninguém. Gente ausente.

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