Terça-feira, 19 de Junho de 2007

A outra margem (parte 6)

Ricardo estremeceu e deu um salto para a frente, como se tivesse sofrido uma descarga eléctrica. Virou-se e olhou para a mulher com os olhos muito abertos, não sentindo a água a entrar de mansinho nas suas botas.
— Como?
Dípia apontou o queixo para a outra margem.
— Foi o teu melhor arremesso de sempre. Aquela é a tua pedra da sorte. Não a queres ir buscar?
— Já te esqueceste que eu não sei nadar? E ainda por cima não tenho calção de banho comigo. Para além disso, não me sinto nada à vontade para ficar nu à tua frente!
— Bem, quanto à parte do nadar, não te preocupes, eu vou-te ensinar. Mas quanto ao facto de não teres calção não sei qual é o problema? Ou por acaso achas que eu trago algum vestido?
A jovem exibou um lindo sorriso trocista. Tinha os dentes muito certos e brancos. Passou a mão pelo queixo e continuou:
— Ah, e não tens de te despir à minha frente. Podes fazer isso atrás dessas árvores mas por mim fica à vontade... Ou achas que ficarei impressionada com o que vir?
Não conseguiu abafar uma sonora gargalhada. Ricardo encolheu os ombros mas estava irritado: “Mas quem é esta tipa para me dizer estas merdas? Porra, é boa mas é a fazer-me de parvo!”
— Pois bem, vamos lá a ver se és mesmo mulher para me ensinares a nadar! — com brusquidão despiu a t-shirt; sentou-se numa pedra e descalçou as botas e as meias, atirando-as para longe da margem; pôs-se de pé, desapertou as calças e, sem cair, tirou-as com fúria. Ficou apenas de cuecas pretas. — Pronto, vamos lá!
Dípia fez que não com um dedo.
— Não sejas batoteiro. Tens de ficar completamente nu.
Ricardo abriu a boca e revirou os olhos. Foi imperativo.
— Vira-te!
— Nem penses! Depois ficas a admirar-me o rabo...
Numa raiva, o rapaz encheu-se de coragem. Voltou as costas a Dípia, tirou as cuecas, lançou-as para as ervas rasas da margem e correu para a água, não sentindo as pedrinhas do fundo da lagoa a cravarem-se nos pés. Atirou-se de cabeça num chapão pesado e nadou três ou quatro braçadas num estilo indecifrável. Mas de repente parou. Tinha a água pelo pescoço e esbracejava desastradamente numa voz engasgada.
— So... Soco... rro... Estou a afo... afogar-me...

(continua em breve)

1 comentário(s):

Sónia disse...

Este conto está a ficar muito interessante!!O que irá acontecer ao rapaz?Estou curiosa...Boa continuação.
Um beijo