Sexta-feira, 22 de Dezembro de 2006

O gato preto

Já não me lembro da idade que tinha mas creio que rondava entre os 14 e os 16 anos. Mas sei onde se passou, se bem que até hoje ainda não tenho a certeza se o que aconteceu foi sonho ou foi realidade.
Era Verão e eu e a minha família costumávamos passar essa altura do ano na Costa de Caparica, numa casa de praia. Os meses eram longos e intermináveis mas quando chegavam ao fim parecia que se tinham consumido como um fósforo.
A casa estendia-se ao comprido, pachorrenta como a estação estival mas estreita como um barco a remos. As divisões ligavam-se entre si como elos; uma pegava na outra que depois pegava na seguinte. Não se pense que era um palácio. Tinha apenas dois quartos, uma sala, uma cozinha, uma casa de banho sem banheira (tomávamos duche no meio da divisão, que tinha um ralo de escoamento no meio). Da cozinha saíam umas escadas íngremes e estreitas, cuja segurança eram cordas. Hoje penso que sempre que trepava as escadas era como se escalasse ao alto de um mastro de um navio. Mas as escadas não iam dar a nenhuma embarcação mas sim a um sótão. Era quase tão comprido como a casa mas era ainda mais estreito, com um tecto que começava a interferir com o meu crescimento.
Era aí que eu e os meus irmão dormíamos, cada um na sua cama, dispostas em fila indiana. O meu irmão mais novo dormia na 1ª cama, eu na 2ª e, no fundo da divisão, o meu irmão do meio.
Foi nesse sótão que o gato preto entrou na minha vida, para dela nunca mais sair.
Uma noite, durante o meu sono, tive a sensação que alguns gatos rebolavam no telhado da casa, mesmo por cima da minha cabeça. Era usual isso acontecer, por isso eu não larguei o meu sono e ele também não me largou. Seguiram-se alguns minutos de uma adormecida escuridão mas de repente acordo.
Sobressaltado, sento-me encostado à almofada e é nesse momento que o vejo, aquele enorme gato preto, ali, ao fundo da cama.
Todo arqueado e eriçado, bufava estático, fixando-me com 2 olhos grandes como luminosos faróis. Era um gato maior do que os normais, com tanto de magnífico como de assustador.
O escuro da noite era atenuado pela luz do candeeiro da rua que entrava pela clarabóia mas, sustido pelo mais puro dos medos, o meu corpo estava como que num torpor. Imóvel e aterrorizado, quis gritar mas a garganta estava sufocada e da boca não saiu nenhum som. Apenas um ligeiro estalido gutural afastou da minha visão o gato preto dali para fora.
Durante longos minutos fiquei como que em suspenso, com o coração a bater mais forte do que alguma vez tinha batido. Atento a todos os ruídos, tentei perceber se aquele gato preto tinha sido real ou apenas um pesadelo. Se era verdadeiro, como tinha ele entrado em casa? Mas, se fosse falso, porque tinha entrado no meu sonho?
Ainda hoje penso no que aconteceu mas apenas sei que nunca tinha sentido (e nem nunca mais senti) um terror tão genuíno como aquele e, talvez por isso mesmo, espantosamente belo.
Mas o gato preto será que existiu? Eu acredito que sim. Ele continua a viver algures, na minha cabeça, e agora também nesta história real.
Ou não…

(este é o meu 1º conto publicado no livro Histórias Devidas, das Edições Asa, sob o nome de Bruno Cunha: a ilustração é da Sara Corceiro)

3 comentário(s):

Thewomaninred disse...

Já conhecia este conto.
Voltei a gostar.

A razão do meu viver disse...

oi
fiquei a saber que aos 16 anos não era o único que bebia umas cervejas e sonhava com gatos enormes.

Pedro Jorge disse...

nada pior que os medos de crianças. aquelas histórias que facilmente se tornam reais porque não estamos habituados a questionarmo-nos tanto na altura. depois as dúvidas aparecem com o resfriamento da memória, passados anos.
é interessante recordar mais tarde, passado, estranhos acontecimentos bizarros que se tornaram mágicos pela novidade da experiência.