segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009

22ª crónica no ST

Em tempo de Boas Festas (e assinalando o facto deste blog estar activo há já 3 anos), eis mais uma crónica minha no Semanário Transmontano.. O assunto não é nada efusivo mas é sobre algo que afecta mais de meio milhão de portugueses. Leiam aqui e deixem o vosso comentário, se assim o desejarem.
Já agora aproveito esta ocasião para desejar a todos um óptimo 2010. Muito obrigado e apareçam sempre por aqui, nem que seja uma vez por dia.

sexta-feira, 11 de Dezembro de 2009

Moeda



Dela sabe-se que muitas vezes está em queda. Há quem diga que esse é o seu verdadeiro estado natural. Pelo menos, tem muita queda para isso.

Cuidado!

º

Afaste-se!

º

Lá vem uma a cair!

Balão

Incha o ego e sobe, sobe.
BUM!
Bye-bye…



(vídeo da Reno Balloon Race 2006, retirado do youtube)

terça-feira, 24 de Novembro de 2009

Transformação

Um dia um homem quis ser um Homem. Passou por uma senhora e tirou-lhe o m da mala. A senhora e o que restava da mala protestaram mas o homem fugiu com o m debaixo do braço. Ao virar uma esquina, trocou o h pelo m, e assim ficou um momem. Para ser um Homem ainda lhe faltava muita coisa.
Olhou para o céu e este estava polvilhado de pequenas nuvens. Esticou um braço e sacou um u a uma delas. A nuvem não se importou e ele trocou o ó por um u e passou a ser uma mumem. Algo estava a mudar: a barba estava mais rala e o peito mais saliente.
Prosseguindo no seu desejo de se tornar um Homem, ao passar por um campo reparou que alguns agricultores estavam bastante atarefados numa colheita. Pegou numa foice e, de um só golpe, colheu o l e o h, tendo a colheita ficado irremediavelmente perdida. Brandindo as suas alfaias agrícolas, puseram-se na perseguição da mumem mas perderam-lhe o rasto. Cruzaram-se apenas com uma mulhem, que lhes indicou a suposta direcção da foragida.
Agora sentia um vago desconforto por todo o corpo e começava a desconfiar que o seu desejo poderia ter algo de errado. Os seus passos eram mais curtos, a sua sombra mais esbelta e sentia uma sensação estranha entre as pernas. Imaginou um grande e arrebatado amor e, mesmo em pensamento, subtraiu-lhe o r. Fez dele seu amo e senhor e foi rápida em trocar o m pelo r. Ao passar pela montra de uma loja, viu-se reflectida e não se reconheceu. Cravada no reflexo encontrava-se uma mulher, obviamente nada parecida com o Homem que tinha imaginado. A sua vaidade permitiu-lhe mais um devaneio: entrou na loja e pediu à empregada o M de uma sofisticada Mala de Senhora. Custou-lhe muito caro mas o homem que um dia quis ser um Homem estava feito uma bela Mulher.

domingo, 22 de Novembro de 2009

Salto à Vara

É um desporto no sempre no limite e no qual a fasquia é sempre muito alta. Salto à Vara é o título da minha última crónica no Semanário Transmontano. Leiam e sintam a vertigem de uma modalidade que atrai muito "boa" gente...

(imagem retirada daqui)

quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Ri tu

Todos os dias, à mesma hora, fazia sempre a mesma coisa: pegava numa pena e passava-a debaixo de uma axila.

Só fá

A nota estava sozinha e cansada. Deitou-se e adormeceu.

Há lá

À entrada de uma mesquita um homem pode encontrar o par de sapatos que sempre quis ter.

Sino

Tanto tocou que Deus ficou surdo.

Electrostático

Levou com um raio em cima e nunca mais se mexeu.

100 dias a penar

Ao 101º dia cansou-se e resolveu ser feliz.

Saiu à rua

Podia ter saído à avenida mas ela era mesmo a cara chapada da rua.

domingo, 11 de Outubro de 2009

Afastado

Afastado. Eu andava sempre afastado de tudo. Afastado das pessoas, das suas ilusões e gargalhadas, das suas manias e medos e até das suas alegrias. Só eu contava.
Passava a vida fechado em mim mesmo, na minha vaidade, no meu apartamento caríssimo, no meu automóvel topo de gama. Fechado, sem dar importância aos outros.
Mas um dia tudo mudou. O telefonema foi curto e seco: a minha mãe tinha uma doença. Aquela doença. Foi dispensada do trabalho, lá na distante aldeia onde ainda hoje vive.
Também a vizinhança a dispensou. Nunca mais trocaram com ela uma palavra, um gesto, um carinho. Fugiam dela a 7 pés. Era por causa da doença. Daquela doença.
Fui ter com ela num dia amorfo, sem chama, sem sol. Senti os olhares escondidos atrás das janelas, das portas, das esquinas.
Parei o carro e bati à porta. Uma senhora ainda viçosa mas assustada deixou-me entrar. Estava visivelmente emocionada.
— Filho, tu por aqui?
Não quis dizer nada. Não pensei em nada. Nem no apartamento, nem no carro, nem na minha vida mesmo no centro do fogo de todas as vaidades.
Abracei-a com força e, ao fazê-lo, olhei para o espelho no corredor da sala. Lá estava eu. Com os olhos húmidos.
Nesse dia quebrei uma corrente. Várias, talvez. Abandonei a cidade e o seu brilho insustentável e voltei para a terra onde nasci apenas para estar com a pessoa que me deu asas para voar. Voltei ao ninho, para a minha mãe. Para fintarmos a doença e os olhares escondidos. Para abrir portas e cumprimentar as pessoas, olhando-as nos olhos. Sem medo. Deles e daquela doença.
"Um dia a cura virá", as palavras sábias da minha mãe eram a nossa esperança. Ficarei com ela até esse dia. Nunca mais afastado, apenas com o pensamento na cura e no seu amor que agora consigo retribuir.
Obrigado, maldita doença, por me teres feito humano de novo. O sorriso da minha mãe é o brilho da boa nova que se avizinha. Espero. Um dia ela virá, a cura, à boleia de uma brisa de vento, ultrapassando todos os obstáculos, todos os olhares furtivos, todos os recolhimentos.
E eu nunca mais irei estar num pedestal.
Obrigado pelo teu riso, mãe.
Pego na mão dela e nada digo. Apenas acredito e sei que ela também.

(em breve informação adicional sobre este conto)