Sábado, 11 de Julho de 2009

Matar o tempo

Georgina passava algum tempo na internet, em conversas da apanhada e das escondidas. Com homens ou com mulheres. Com muitos ao mesmo tempo. Ou então a sós e em privado.
Divertia-se em conversetas tecladas, que muitas vezes roçavam o picante. Por mais do que uma vez tocou-se e viu asteriscos e arrobas enquanto digitava frases feitas de grunhidos e sugestões. Mas, só uma ou duas vezes, esteve tentada a combinar um encontro. Uma vez com um homem. Outra vez com uma mulher.
Com o homem (do qual já não se lembrava do nickname) ainda acreditou que pudesse estar apaixonada. Nada de muito concreto mas foi algo que ainda lhe deu algumas noites mal dormidas.
Essa emoção cresceu como um leve incómodo sem rosto, uma voz dentro de si que, tal como as vozes dos seus companheiros cibernautas, não podia escutar. E que suposta voz seria essa? Talvez a voz da criança que ainda habitava o seu imenso corpo roliço. Talvez não fosse nada disso. Talvez não existisse nenhuma voz, nem sequer um murmúrio. Apenas um leve rumor que de vez em quando fazia estremecer o seu coração, tal como o vibrar de um telemóvel em modo de silêncio.
O que fazia era apenas matar o tempo dentro de si, fenómeno que era mais notório quando só ia para a cama com o sol a romper, isto sem ter dado pelo girar implacável dos ponteiros dos relógios.

Um dia cheio de nada

Sonho que vou ter um dia cheio de nada, imenso e árido. Um dia como outro qualquer, igual aos dias passados e provavelmente um modelo para os dias futuros.

(foto de Bruno Cunha)

Terça-feira, 7 de Julho de 2009

Ataque cardíaco

― A nossa profissão é a 2ª do mundo com maior número de ataques cardíacos!
Mal disse esta frase, viu-se um intenso clarão junto à janela da sala de reuniões, logo seguido de um grande estrondo que abanou todo o edifício de escritórios.
Caiu fulminado no chão.
De facto, ele não se tinha enganado. Era mesmo a 2ª profissão do mundo com mais ataques cardíacos.

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

16º crónica no Semanário Transmontano

A propósito da ebulição eleitoral que este ano se regista no nosso país, a minha última crónica no Semanário Transmontano tem voto nesta matéria. Leia e comente. Ah, e nas eleições não se esqueça de cumprir o seu dever cívico: vote!

Domingo, 14 de Junho de 2009

Perder o Norte

Perdi o Norte. Já o procurei em todo o lado mas não o encontro. Fui para Leste, passei para lá do nascer do Sol mas não dei com ele. Depois atravessei um oceano e rumei a Oeste. É vagamente parecido com o Norte mas já há muito tempo que não se avistam um ao outro. Já desesperado fui até ao Sul mas este fechou-se em copas. Detestam-se. Ele e o Norte são como a azeite e a água. Olhei para o céu, mergulhei nos mares e até vasculhei o solo, mas nada. Perdi mesmo o Norte. Restam-me o Nordeste e o Noroeste para me ajudarem a esquecê-lo. No entanto, uma coisa é certa: sem o Norte fico mesmo sem rumo.

Quarta-feira, 10 de Junho de 2009

Virga*

A recta.
A meta.
A bandeira à vista.
O xadrez no alcatrão.
O ciclista isolado.
Mas por pouco tempo.
O ataque do pelotão.
O ataque de coração.
A queda.
A aflição.
E a recta sem ser finalizada, a meta cortada, com a bandeira à vista, o xadrez no alcatrão.
A morte pedalou e chegou primeiro que o camisola amarela.
A lata dela!


*Virga é um fenómeno meteorológico no qual a chuva ou a neve evaporam-se enquanto se precipitam das nuvens, não chegando a atingir o solo.

(foto retirada daqui)

Segunda-feira, 1 de Junho de 2009

Tirei a tarde

Um dia destes fiz algo que nunca tinha feito na minha vida: tirei a tarde. Não foi fácil. Peguei no meu canivete e, com o máximo de precisão possível, comecei a cortá-la junto ao meio dia. Quando terminei esta operação, avancei até às 20 horas. A coisa não foi tão fácil pois a tarde já estava solta, agitando-se bastante sempre que o meu canivete tentava talhar a direito. O problema é que bocados das 21 horas vieram colados à tarde mas isso não me incomodou muito. Mal terminei meti a tarde debaixo do braço e fui à minha vida. Estava com a esperança que ninguém me tivesse topado. Infelizmente enganei-me. O meu patrão deu pela coisa e retaliou: no dia seguinte tive de lhe devolver a tarde (afinal, cheguei à conclusão que o raio da tarde era dele). Não tugi nem mugi e entreguei-lha de mão beijada, com um bom bocado de noite agarrado a ela.

Facebook e Linkedin

Serve este post para dizer que depois de não ter vingado no hi5, no orkut e no myspace, eis que, aparentemente, peguei de estaca no facebook. Assim, já me podem encontrar aqui.
Dentro de um âmbito mais profissional, também estou no linkedin.
Muito obrigado e fiquem atentos aos meus próximos posts, entre os quais deverão existir mais contos curtos e também notícias frescas sobre o meu livro.

Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

Pontos cardeais

Os homens vestidos de escarlate pregavam a torto e a direito. Mais a torto pois não tinham jeitinho nenhum para darem com os martelos nos pregos. Estavam todos em cima de um enorme palco, junto a um grande púlpito, lá ao fundo, numa imensa praça. Mal se viam. Realmente, eram uns pontos, os cardeais.

Sexta-feira, 22 de Maio de 2009

É oficial! Vem aí o meu 1º livro!

Pois, é verdade, já posso anunciar oficialmente que o meu 1º livro será apresentado e publicado em Outubro. A publicação será constituída por contos curtos e muito curtos e o nome do livro é... Ok, terão de esperar mais algum tempo para saberem o nome do livro. A editora é a Edium Editores, de Matosinhos. Apesar de estar mais vocacionada para a poesia, decidiram apostar num género pouco divulgado em Portugal: a microficção (ou, nas minhas palavras, os nanocontos ou os contos flash).
A pouco e pouco irei desvendando mais pormenores sobre o meu livro. Dsesde já posso dizer que é um livro 2 em 1 e que terá uma pequena campanha de promoção no youtube, com pequeno filmes low-fi realizados por mim). Ok, por agora não levanto mais o véu mas fiquem atentos: o meu blog (ou meus mails cirúrgicos) irão falar da minha 1º publicação sempre que eu achar oportuno.
Muito obrigado e até breve.

Terça-feira, 19 de Maio de 2009

Apito final

A montra exibia um cartaz amarelado e tosco. “TRESPAÇA-SE”, estava escrito assim, à mão, num português no mínimo duvidoso.
A loja era estreita e pequena. E cheirava a mofo. Vendia tudo e mais alguma coisa, a um preço barato e fixo.
O tipo vestido de preto vasculhou todos os escaparates poeirentos mas não encontrou o que queria.
— Por acaso não tem apitos?
A empregada ruminava uma pastilha elástica.
— Veja naquela prateleira ali.
Apontou o dedo numa direcção vaga.
— Aquela que tem os porta-moedas e os espanadores?
— Essa mesmo.
Vermelho baço e empoeirado, lá estava ele, meio escondido debaixo de um porta-moedas de napa, o último apito à venda numa loja fora de jogo.

(a imagem é um logótipo de uma equipa de futebol virtual, que acabou de ser extinta há poucos dias; de facto, foi a a minha equipa de futebol virtual durante 5 anos, no jogo hattrick; o logótipo foi criado por Augusto Pardal)

Segunda-feira, 18 de Maio de 2009

Dar o nó

Hesitei no momento de dar o nó.
Colei-me à minha noiva e segredei.
— Vamos mesmo dar o nó?
A resposta foi peremptória.
— Claro que sim!
Mas eu continuava a hesitar.
— Mas qual? O nó simples ou o nó de oito?
— Hum, acho que nenhum desses é o mais adequado. Porque não tentamos o nó de frade?
- Não me parece muito conveniente. Não te esqueças que estamos numa cerimónia judaica…
— Tens razão… E que tal o nó direito?
— Não é mal pensado mas eu gosto mais do nó de pescador…
— Ná… Esse é usado para unir dois cabos…
— Pois… Já sei! Que tal o nó singelo?
— Fantástico! Parece-me muito bem!
— Vamos a isso?
— Vamos!
E foi assim que finalmente dei o nó.