quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Ri tu

Todos os dias, à mesma hora, fazia sempre a mesma coisa: pegava numa pena e passava-a debaixo de uma axila.

Só fá

A nota estava sozinha e cansada. Deitou-se e adormeceu.

Há lá

À entrada de uma mesquita um homem pode encontrar o par de sapatos que sempre quis ter.

Sino

Tanto tocou que Deus ficou surdo.

Electrostático

Levou com um raio em cima e nunca mais se mexeu.

100 dias a penar

Ao 101º dia cansou-se e resolveu ser feliz.

Saiu à rua

Podia ter saído à avenida mas ela era mesmo a cara chapada da rua.

domingo, 11 de Outubro de 2009

Afastado

Afastado. Eu andava sempre afastado de tudo. Afastado das pessoas, das suas ilusões e gargalhadas, das suas manias e medos e até das suas alegrias. Só eu contava.
Passava a vida fechado em mim mesmo, na minha vaidade, no meu apartamento caríssimo, no meu automóvel topo de gama. Fechado, sem dar importância aos outros.
Mas um dia tudo mudou. O telefonema foi curto e seco: a minha mãe tinha uma doença. Aquela doença. Foi dispensada do trabalho, lá na distante aldeia onde ainda hoje vive.
Também a vizinhança a dispensou. Nunca mais trocaram com ela uma palavra, um gesto, um carinho. Fugiam dela a 7 pés. Era por causa da doença. Daquela doença.
Fui ter com ela num dia amorfo, sem chama, sem sol. Senti os olhares escondidos atrás das janelas, das portas, das esquinas.
Parei o carro e bati à porta. Uma senhora ainda viçosa mas assustada deixou-me entrar. Estava visivelmente emocionada.
— Filho, tu por aqui?
Não quis dizer nada. Não pensei em nada. Nem no apartamento, nem no carro, nem na minha vida mesmo no centro do fogo de todas as vaidades.
Abracei-a com força e, ao fazê-lo, olhei para o espelho no corredor da sala. Lá estava eu. Com os olhos húmidos.
Nesse dia quebrei uma corrente. Várias, talvez. Abandonei a cidade e o seu brilho insustentável e voltei para a terra onde nasci apenas para estar com a pessoa que me deu asas para voar. Voltei ao ninho, para a minha mãe. Para fintarmos a doença e os olhares escondidos. Para abrir portas e cumprimentar as pessoas, olhando-as nos olhos. Sem medo. Deles e daquela doença.
"Um dia a cura virá", as palavras sábias da minha mãe eram a nossa esperança. Ficarei com ela até esse dia. Nunca mais afastado, apenas com o pensamento na cura e no seu amor que agora consigo retribuir.
Obrigado, maldita doença, por me teres feito humano de novo. O sorriso da minha mãe é o brilho da boa nova que se avizinha. Espero. Um dia ela virá, a cura, à boleia de uma brisa de vento, ultrapassando todos os obstáculos, todos os olhares furtivos, todos os recolhimentos.
E eu nunca mais irei estar num pedestal.
Obrigado pelo teu riso, mãe.
Pego na mão dela e nada digo. Apenas acredito e sei que ela também.

(em breve informação adicional sobre este conto)

quinta-feira, 8 de Outubro de 2009

Mais uma no Semanário Transmontano

Uma vez mais, uma crónica minha no Semanário Transmontanomete muita água. Enfiem uma bóias nos braços e leiam aqui. Muito obrigado.

domingo, 6 de Setembro de 2009

Livro suspenso

Há algum tempo atrás foi com enorme alegria que comuniquei que iria ver publicado o meu 1º livro. Pois, iria (os verbos no condicional trazem sempre marosca). Acontece que a editora que apostou na minha 1ª publicação fechou as suas portas. O motivo foi simples mas arrasador: doença grave do editor. Neste momento está a tentar-se encontrar uma outra solução e fazer figas para que ela apareça.
Muito obrigado.

Cuidado com as margaritas!

A minha 1º crónica no Semanário Transmontano, após o regresso de férias, é sobre o estado líquido de uma bebida (margarita), tendo um casino como co-protagonista. Digamos que o assunto é quente, quando deveria ser fresco. Leiam aqui.

quarta-feira, 5 de Agosto de 2009

Jun tos

Em lados <-- --> opostos.

sábado, 1 de Agosto de 2009

De boca aberta

Morri afogado. Enquanto morria, no meu lento e doloroso sufoco, quando os meus pulmões inchavam com a água salgada, a minha morte era tomada como uma forma de vida.
No fundo do mar, no momento em que os meus últimos limites estrebuchavam, um grande peixe veio fazer-me companhia. Talvez movido pela curiosidade, nadou à minha volta. Eu era um exemplar diferente da sua espécie e também era grande demais para ser comido. Aliás, pareceu-me bastante pacífico, este peixe. Acasalar estava fora de questão. A incompatibilidade deve ter-lhe parecido descomunal. Eu não tinha cauda, movimentava-me de uma forma desordenada, não tinha guelras nem escamas. E, se calhar, era demasiado feio para os seus padrões de beleza.
Lentamente, enquanto ia perdendo a consciência, reparei que o seu interesse concentrava-se nas poucas bolhas de ar que a minha boca ainda expelia. Talvez interpretando esse desespero como uma atitude amistosa, morri com a retribuição daquele meu comportamento involuntário. O peixe, tal como eu, abria e fechava a boca. E, por mais estranho que pareça, quando a senhora de negro finalmente me veio buscar, senti a mais inexplicável e deliciosa sensação de flutuação. Com o peixe, segui no grande cardume em direcção ao mais insondável dos abismos: a morte, essa mesmo, que muitas vezes nos deixa de boca aberta.

(foto de Adrian Dennis/AFP/Getty Images, retirada daqui: http://news.nationalgeographic.com/news/2005/10/1007_051007_robot_fish.html)