Afastado. Eu andava sempre afastado de tudo. Afastado das pessoas, das suas ilusões e gargalhadas, das suas manias e medos e até das suas alegrias. Só eu contava.
Passava a vida fechado em mim mesmo, na minha vaidade, no meu apartamento caríssimo, no meu automóvel topo de gama. Fechado, sem dar importância aos outros.
Mas um dia tudo mudou. O telefonema foi curto e seco: a minha mãe tinha uma doença. Aquela doença. Foi dispensada do trabalho, lá na distante aldeia onde ainda hoje vive.
Também a vizinhança a dispensou. Nunca mais trocaram com ela uma palavra, um gesto, um carinho. Fugiam dela a 7 pés. Era por causa da doença. Daquela doença.
Fui ter com ela num dia amorfo, sem chama, sem sol. Senti os olhares escondidos atrás das janelas, das portas, das esquinas.
Parei o carro e bati à porta. Uma senhora ainda viçosa mas assustada deixou-me entrar. Estava visivelmente emocionada.
— Filho, tu por aqui?
Não quis dizer nada. Não pensei em nada. Nem no apartamento, nem no carro, nem na minha vida mesmo no centro do fogo de todas as vaidades.
Abracei-a com força e, ao fazê-lo, olhei para o espelho no corredor da sala. Lá estava eu. Com os olhos húmidos.
Nesse dia quebrei uma corrente. Várias, talvez. Abandonei a cidade e o seu brilho insustentável e voltei para a terra onde nasci apenas para estar com a pessoa que me deu asas para voar. Voltei ao ninho, para a minha mãe. Para fintarmos a doença e os olhares escondidos. Para abrir portas e cumprimentar as pessoas, olhando-as nos olhos. Sem medo. Deles e daquela doença.
"Um dia a cura virá", as palavras sábias da minha mãe eram a nossa esperança. Ficarei com ela até esse dia. Nunca mais afastado, apenas com o pensamento na cura e no seu amor que agora consigo retribuir.
Obrigado, maldita doença, por me teres feito humano de novo. O sorriso da minha mãe é o brilho da boa nova que se avizinha. Espero. Um dia ela virá, a cura, à boleia de uma brisa de vento, ultrapassando todos os obstáculos, todos os olhares furtivos, todos os recolhimentos.
E eu nunca mais irei estar num pedestal.
Obrigado pelo teu riso, mãe.
Pego na mão dela e nada digo. Apenas acredito e sei que ela também.
(em breve informação adicional sobre este conto)